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O tempo parou. Não chegou a parar, mas quase parou. O relógio
não apresentava mais nada útil, pois ninguém naquela sala queria saber do
tempo. A sala de estar, coberta de lambris de cedro, criava um cenário de
intimidade única. As toras de lenha crepitavam na lareira, irradiando o
calor que avançava pelo aposento. Nesse cenário de imponente aconchego,
Thomas e Vicky travavam uma muda batalha dos sexos. Muda, porque não
trocavam palavras. Guerra, porque jogavam xadrez, enquanto cumpriam os
rituais da conquista mútua.
O tabuleiro de xadrez de madeira nobre era o centro do
canteiro da batalha. Thomas e Vicky já haviam passado da idade na qual os
hormônios falam por si sós. Eles entraram na fase da vida onde tudo vira uma
questão de sedução. O sexo deixara de ser algo único. Deveria ser
acompanhado pela conquista, para se completar. O charme da conquista passara
a ter enorme valor.
Thomas acendeu um charuto, enquanto servia dois cálices de
conhaque, em forma de balão. Tanto ele, como ela, sabiam que o conhaque
aguçaria seus instintos. O Courvoisier XO Imperial exalava a alma que podia
ser inalada, no interior do cálice balão. Thomas girou o cálice entre as
mãos, aquecendo-o para que os vapores do destilado aflorassem. Ele sabia que
a metade do prazer propiciado pelo conhaque vinha da inalação dos vapores da
bebida. Um excelente conhaque deveria ser cheirado, antes de ser bebido.
Vicky não perdera a concentração no jogo. Tentara um infantil
Mate de Legal, oferecendo sua dama. Porém, Thomas não era principiante no
xadrez, recusando a mortal oferta. Nenhum dos dois era jovem. Passaram à
sutil batalha de caras e trejeitos. Ela passava a língua pelos lábios, de
forma insinuante. Ele devolvia o olhar, como que concordando com as mais
loucas propostas que permaneciam apenas na insinuação.
Vicky abandonou o sapato de salto incrivelmente alto. Seu pé,
coberto pela meia-calça branca, procurou a perna de Thomas, insinuando-se
pela boca da calça. Thomas não era de fitar ninguém diretamente, porém a
insinuação dela fez com que ele a encarasse de frente, através do fundo do
cálice balão.
Então, surgiriam os Simpsons, às 22 horas do dia 30. E eu
ainda olho esta porcaria de TV a cabo, que começou a pôr anúncios no meio
dos filmes.
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