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O pacato município do Lado de Cá do Cinamomo não ouvia o sino
da igreja, fora dos horários litúrgicos, há muitos anos. Nem Padre Antão
lembrava-se da última vez. O sino limitava-se ao anúncio das missas, das
horas de entrada e saída da roça, e dos óbitos, todos os três, registrados
nesta década. O toque às 16h49 causou o retorno prematuro do pessoal da
roça. E o mugido do crescido terneiro. Linoberto não precisou observar a
sombra projetada pelos pés de milho, para constatar que ainda não chegara a
hora usual do retorno para casa, antecedido pela passagem no Bar,
Churrascaria e Borracharia 12 Irmãos.
Quando Linoberto chegou ao 12 Irmãos, este estava às moscas.
Eufemismo desnecessário, pois o bar sempre estava cheio de moscas. Havia
apenas um cartaz, aviso para que todos se dirigissem ao cinamomo que deu
nome ao Município, ao lado da pinguela. Quando chegaram lá, havia grande
agitação. Dona Clotilde, beata e ex-presidiária, por ter sido flagrada após
consagrar com o vinho de missa, brandia uma foice, na direção de um homem
vestindo macacão, e empunhando a motosserra. Padre Antão, revivendo Eúde –
Juízes 3.27 - estava sobre um galho do cinamomo, tocando a versão moderna da
Trombeta de Gideão, enquanto conclamava o povo do Lado de Cá do Cinamomo
para abraçarem a árvore ameaçada. Os 12 irmãos formaram uma corrente ao
redor do caule.
Linoberto não entendia o que provocara tamanha convulsão,
pois não sabia que o Ministério da Estatística havia decretado o fim da
árvore. O agora crescido terneiro mugia desesperadamente, contagiado pelo
caos reinante. Linoberto sentiu uma mão colocar-se cuidadosamente sobre o
seu ombro. Era o Estranho, único representante do Governo que conseguia
encontrar a pinguela que dá passagem ao Lado de Cá do Cinamomo. Era
exatamente esse cinamomo, que dava nome ao Município, que dificultava a
visualização da pinguela.
- O que, afinal, está havendo aqui? – perguntou Linoberto.
O estranho fez sinal para que o agente da motosserra
desligasse a máquina, e acompanhou Linoberto ao 12 Irmãos. Padre Antão, Dona
Clotilde, e seis dos 12 irmãos ficaram ao lado do cinamomo, em vigília
cívico-eclesiástica.
- Linoberto, sinto muito pela confusão que causamos, mas
estamos apenas cumprindo um Decreto Ministerial. – O Estranho parecia
especialmente estranho, constrangido mesmo.
- Decreto? Não é uma Lei Besta, desta vez – Besta Lex, sed
Lex! – A lei é besta, mas é a lei?
- Não, Linoberto, desta vez é um Decreto, do próprio
Ministério!
- Entendi: Bestum decretum, sed decretum – O decreto é besta,
mas é o decreto!
- Ora, Linoberto, devemos apenas cortar o cinamomo...
- Mas, este é o problema! O cinamomo é o que nos resguarda
dos do lado de lá do cinamomo. Sem ele, todos poderão cruzar a pinguela. Em
pouco tempo, isto aqui deixará de ser o último bastião da classe média!
O Estranho já não estranhava mais a "boa", bebendo um longo
trago, sem fazer caretas.
- Eu sei que vocês gostam muito desse cinamomo, mas ele está
atrapalhando a estatística.
- Por quê? – Linoberto não entendia por que o tal do
ministério queria pôr abaixo o cinamomo. – É ele que nos mantém como
minoria.
- Ahá! Agora nós chegamos ao fulcro do problema! Vocês não
são mais a minoria! O Ministério da Estatística decretou o fim da classe
média como minoria. Agora, vocês fazem parte da maioria! Portanto, não
poderão ficar separados do resto do País. Vocês ficarão diluídos nessa
formidável classe média global! Basta que arranquemos o maldito cinamomo!
O crescido terneiro mugiu, solenemente.
- Estranho, você nos conhece há muito, e já deve ter
percebido que isto aqui é o último reduto da classe média, mais por questões
de atitude do que de renda. Essas atitudes certamente têm a ver com a
distribuição de renda, mas a simples derrubada do cinamomo, e a conseqüente
invasão do Lado de Cá do Cinamomo, não nos trará nenhum benefício, muito
antes pelo contrário. Basta uma olhada superficial, no que acontece no lado
de lá do cinamomo, para se constatar que algo está errado com a estatística
de vocês. Ou, aquele não é o tipo de classe média com a qual sonhamos!
O piloto da motosserra fez uma careta pavorosa, ao provar da
"boa". Em solidariedade, o crescido terneiro mugiu.
- Mas, os números falam por si só, Linoberto! Veja só o
Índice de Gini, que indica a distribuição de renda. Melhoramos 6,5%!
- Pode ser, mas não é o que se vê, andando pelas ruas do lado
de lá do cinamomo...
- O que é visto, não tem valor estatístico! O que importa é o
que é tabulado, planilhado, calculado, impresso e divulgado!
O crescido terneiro mugiu.
Linoberto chegou em casa após o pôr-do-sol. Maria só havia
deixado a guarda do cinamomo quando o Estranho e o piloto de motosserra
sumiram no horizonte, em meio a uma enorme nuvem de poeira. Até o sol
nascer, a árvore estaria a salvo, pois nem o Estranho se aventurava por
aquela estrada, à noite.
- E aí, Lino, como ficou a história?
- Tudo bem, nós vencemos, por enquanto.
- Como foi, Lino? O cinamomo ficará? – Maria não continha a
ansiedade.
- Sim, Maria, ficará. Por enquanto, está protegido.
- Como conseguiram?
- Bem, Maria. Enquanto o Estranho discursava sobre aquelas
estatísticas deles, eu escrevi um decreto, no papel da mesa, e declarei o
cinamomo tombado como peça do patrimônio histórico e cultural do Lado de Cá
do Cinamomo. Como acumulo o cargo de Secretário De Patrimônio Histórico e
Cultural, tenho poder para tanto.
- E eles têm de obedecer ao decreto?
- Têm, Maria, pois eles mesmos aprovaram uma lei que protege
tudo aquilo que é fruto da manifestação religiosa ou cultural. Por via das
dúvidas, o Padre Antão abençoou o cinamomo.
Maria ficou quieta, pensativa, por um momento. Olhando para o
ocaso, disse:
- Entendo por que é ruim deixarmos de ser minoria. A história
mostra que, há 508 anos, a maioria só se rala, no País.
- Bestum decretum, sed decretum!, apoiado pela Besta Lex, sed
Lex! Lutamos com as armas deles!
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