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"Todo artista tem de ir onde o povo está" - canta o grande
Milton Nascimento. Por vezes, não são os artistas, que vão, é a obra deles
que vai ao encontro do povo. O escultor Bruno Giorgi (1905-1993), nascido no
interior paulista, filho de imigrantes italianos, emigrou de volta para a
Itália, em 1911. Acompanhou a família, que para lá retornou. Em Roma,
militou no partido comunista, o que lhe rendeu uma extradição, de volta para
o Brasil, após amargar quatro anos no xilindró romano. Nos anos 30, ele foi
estudar em Paris, nas prestigiadas academias La Grande Chaumière e Ranson.
Bruno Giorgi voltou ao Brasil, em 1939, e estabeleceu-se em São Paulo. Ao
longo de 40 anos de escultura, Giorgi deixou obras de grande expressão
artística, como o Monumento à Juventude Brasileira (1947), que se encontra
no Palácio da Cultura do Rio de Janeiro, antigo Ministério da Cultura e
Saúde. Os Candangos (1960) enfeita a Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Outra obra de grande destaque é Integração (1989), que se encontra no
Memorial da América Latina, em São Paulo. Bruno Giorgi foi professor do
artista plástico austríaco, naturalizado brasileiro, Francisco Stockinger.
Há uma obra de Giorgi na Praça da Alfândega, em Porto Alegre:
o Teorema. Pois o Teorema está cercado pelo povo. Nestor e suas famílias
moram atrás do Teorema, durante o dia, pois perdem a marquise que os abriga,
durante a noite. Esse crescimento econômico, que tirou a maior parte da
população da condição de miseráveis, trouxe a crise imobiliária para a
minoria remanescente, na base da pirâmide. Bons mesmo foram aqueles tempos
de crise, quando havia prédios para alugar, por toda parte. Sobravam
marquises. Hoje, não. Basta o sol nascer para que Nestor e suas famílias
sejam despejados pelos esquadrões da mangueira e do esfregão. Não respeitam
nem sua mulher número 2, que espera outro filho. Ele nascerá sem marquise.
Noutro dia perguntaram ao Nestor sobre o número de filhos dele. Ele sempre
responde o mesmo: dez. E continuarão sendo dez, após no nascimento daquele
que a número 2 carrega no ventre, pois Nestor tem apenas dez dedos nas mãos.
É aí que termina o sistema numérico dele. A Mega Sena acumulada paga dez, há
dez árvores na praça, a idade do Nestor é dez, e assim por diante.
Quase todas as pequenas cidades européias têm monumentos, nas
suas praças centrais, aos soldados mortos durante as duas Grandes Guerras.
São obeliscos com as listas dos nomes. Essas listas são particularmente
grandes nos povoados próximos às fronteiras belga, luxemburguesa e francesa,
com a Alemanha. Lá ocorreram os combates que deixaram milhões de mortos e
estropiados, homenageados através dos célebres monumentos ao soldado
desconhecido. Sobre as cenas que lá presenciou, o médico britânico John
McCrae escreveu um célebre poema, em 1917:
"Nos Campos de Flandres
Nos campos de Flandres
as papoulas estão
florescendo entre as cruzes
que em fileiras e mais
fileiras assinalam
nosso lugar; no céu as
cotovias voam
e continuam a cantar
heroicamente,
e mal se ouve o seu canto
entre os tiros cá embaixo.
Somos os mortos... Ainda há
poucos dias, vivos,
ah! nós amávamos, nós éramos
amados;
sentíamos a aurora e víamos
o poente
a rebrilhar, e agora eis-nos
todos deitados
nos campos de Flandres.
Continuai a lutar contra o
nosso inimigo;
nossa mão vacilante
atira-vos o archote:
mantende-o no alto. Que, se
a nossa fé trairdes,
nós, que morremos, não
poderemos dormir,
ainda mesmo que floresçam as
papoulas
nos campos de Flandres."
Na Praça da Alfândega há apenas monumentos em homenagem
àqueles que conquistaram as mais altas patentes. Nestor nunca lerá Nos
campos de Flandres, até porque é analfabeto. Tampouco sonha onde fica
Flandres, apesar de sonhar com uma telha de folha de flandres, para
construir um puxadinho, no Teorema. Talvez agora perguntem: o que tem uma
coisa a ver com a outra? Bem, provavelmente Bruno Giorgi nunca esperou
chegar tão próximo do povo, a ponto de morarem na sua obra. Tampouco
esperava criar uma espécie de monumento em homenagem ao estropiado
desconhecido, pracinha da miséria. Sem papoulas a florescer, resta algo de
poesia ao Nestor. Talvez ele possa declamar Nos campos da Alfândega:
"...ah! nós amávamos, nós
éramos amados;
sentíamos a aurora e víamos
o poente
a rebrilhar, e agora eis-nos
todos deitados..."
Disso, Nestor entende. Passa metade do dia deitado, e, pela
facilidade que ele apresenta, para amar e ser amado, talvez aquele seja o
monumento ao pai desconhecido.
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