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O Estranho – único funcionário público do País a encontrar o
caminho para o município do Lado de Cá do Cinamomo, último bastião da classe
média – já se tornou figura familiar no Bar, Restaurante e Borracharia 12
Irmãos. Ele tem mexido os pauzinhos na Capital, tentando fixar residência no
Lado de Cá, pois não suporta mais a viagem que se vê obrigado a empreender,
uma vez por mês, para assegurar o cumprimento da Lei institucionalizada do
outro lado do cinamomo. Não fosse a dificuldade de se encontrar o lugar,
outros poderiam vir. Porém, algum dom inato deu ao Estranho a mesma
capacidade, para encontrar o caminho, que as aves migratórias apresentam.
Por outro lado, não há dom que faça alguém suportar a estrada, se é que se
pode chamar aquilo de estrada. É uma estreita e sinuosa sucessão de pedras e
buracos enormes, ora subindo verticalmente, ora descendo. Cada motorista do
carro oficial – trocado a cada viagem – recebe uma semana de folga, ao
retornar. Alguns pedem licença saúde, quando ameaçados de retorno ao Lado de
Cá do Cinamomo.
A chegada do Estranho foi ruidosa. Chegou a bordo de um
veículo utilitário da Patram – Patrulha Ambiental, com direito a giroflex e
sirene. Ele veio acompanhado de dois agentes ambientais uniformizados,
vestindo uniforme de combate e tocas ninjas. Pararam defronte ao 12 Irmãos e
um deles rolou pela grama, enquanto empunhava um fuzil de assalto, apontado
para o bar. O outro gritava: - go, go, go! No momento em que o segundo
agente pedalava a porta do 12 Irmãos, esta abriu-se, pois o sétimo dos 12
irmãos veio ver o que estava acontecendo. O agente estatelou-se entre os
assustados freqüentadores que curtiam a hora feliz, à tardinha – 16h00 Hora
Zulu, como diriam os agentes.
O crescido terneiro mugiu, talvez de susto, talvez de emoção.
O Sétimo foi algemado, antes que pudesse contar até um.
Linoberto veio ligeiro, da roça, alertado pela inusitada sirene, coisa nunca
ouvida do Lado de Cá do Cinamomo, nem quando prenderam a Dona Clotilde, por
dirigir após consagrar com o vinho da missa. O Estranho entrou visivelmente
constrangido, no 12 Irmãos. Antes que alguém pudesse perguntar sobre a razão
da prisão, o Estranho se antecipou:
- Os 12 irmãos serão presos por infringirem o Decreto 24.645
e a Lei 9.605. Recebemos uma denúncia do Serviço de Vigilância Por Satélite,
do Minam – Ministério do Ambiente – e da ONG que fiscaliza a apresentação de
animais em espetáculos.
Onze dos 12 irmãos já estavam algemados, quando Linoberto
chegou. O Décimo Segundo havia ido à latrina, fugindo com ela nas costas.
Procurou refúgio na igreja, junto ao Padre Antão.
- O que eles fizeram, para serem presos? – perguntou
Linoberto.
- Eles mantiveram animais em ambiente anti-higiênico, e os
usaram num espetáculo, sem autorização do Minam!
- Quais animais?
- Três porcos, que, por sinal, serão transferidos para um
zoológico, tão logo a Unidade Móvel de Resgate da Fauna consiga chegar até
aqui.
- Mas, os porcos estão no chiqueiro! – argumentou Linoberto.
- É um lugar muito sujo, completamente anti-higiênico. Sinto
muito, não posso fazer nada, pois lei é lei!
- Sei, Besta Lex, sed Lex! – A lei é besta, mas é a lei!
- E quanto a esse suposto espetáculo? – Linoberto não se
lembrava de algum circo ter algum dia chegado ao Lado de Cá do Cinamomo.
- Foi no domingo passado, às 15h31, Hora Zulu, defronte à
igreja. Havia mais de 40 pessoas presentes. Tenho aqui comigo esta foto
comprobatória.
- Mas, isso foi o concurso anual do Porco Gordo!
- A lei é clara, quanto à permissão para a participação de
animais em espetáculos!
- Sei, Besta Lex, sed Lex! – A lei é besta, mas é a lei!
O crescido terneiro mugiu, talvez de indignação, talvez de
estupefação.
Maria ficou aliviada, quando viu Linoberto subindo pelo
potreiro, em direção a casa. Ela estava morta de curiosidade, pois o assunto
já havia corrido de boca em latrina. Havia pouco, o Décimo Segundo passara
defronte a porteira, carregando a latrina.
- Os 12 estão presos?
- Não, tiveram de soltá-los.
- Por quê?
- Bem, em primeiro lugar, os fregueses do 12 Irmãos ameaçaram
jogar os agentes no chiqueiro, pois não restaria ninguém para tocar o bar.
Depois, o Padre Antão descobriu que haviam criado uma lei que dá foro
especial para todos os detentores de cargos públicos, como os 12 irmãos, já
que o Sétimo é prefeito e os demais são vereadores. O juiz que poderia
mandar prendê-los resolveu liberá-los, pois o Presídio da Capital está
interditado devido a uma grande revolta dos presos. Por último, o telefone
por satélite do Estranho tocou.
- Era da Capital?
- Era, Maria. Era o Ministro da Segurança, em pessoa. Ele
mandou a equipe tocar direto para o Presídio da Capital, aquele onde
estourou a rebelião dos presos.
- Mas, a equipe do Estranho não é da Patrulha Ambiental? –
Maria ficou intrigada.
- É verdade, mas os presos exigem receber o mesmo tratamento
dado aos animais!
O crescido terneiro mugiu, talvez de admiração, talvez de
resignação.
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