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Pela
calmaria que se vê nas ruas, creio que esta será a eleição mais boca de urna
de todos os tempos. O caixa ficou minguado, e a legislação não está ajudando
muito. A simples proibição da afixação de propaganda nos postes transformou
muitos candidatos a vereador em ilustríssimos desconhecidos. Aliás, eles já
eram desconhecidos da população em geral. Apenas perpetuaram essa condição.
Cidades grandes são, na verdade, complexos amontoados de gente, onde cada
cidadão nunca cruzará pela maioria dos seus concidadãos. Portanto, muitos
ficam sem saber em quem votar, especialmente aqueles que não são bem
informados. Limitam-se a assistir aos programas de TV, geralmente dos
estados do centro do País. Como aqui não podem votar no Datena, na Hebe, no
Huck, ou na assassina da novela das oito, dependem da boca amiga na urna
incerta. Três vivas à democracia, nos passos da Dança do Créu. É claro que a
culpa pela desinformação não cabe apenas a um ou outro. Nem à democracia.
Aparentemente, cabe a todos nós, que sofremos as conseqüências.
Especialmente eu.
Esta
campanha de boca em boca torna minha lagarteagem de rua um inferno. Outro
dia, o clone da Whoopi Goldberg veio pedir voto. Aproveito a hora em que os
outros almoçam para relaxar na praça. Então, eles aparecem. Os anônimos
aduaneiros, já que a praça é a da Alfândega. O Nestor já anda meio
incomodado, pois não querem pagar pelo seu voto.
O candidato
anônimo anda sozinho, ou, no máximo, com mais um ou dois comparsas que
carregam papéis e um modesto estandarte, que teima em ficar enrolado. Eles
são a versão ao vivo dos operadores de telemarketing. O problema é
exatamente este, eles estão lá em carne e osso, cara a cara. Com eles não
funciona o argumento, que uso pelo telefone, alegando que o pai e a mãe não
estão em casa, que o assunto deverá ser tratado com o Dr. Barbosa, no Setor
de Enciclopédias, que lá não mora ninguém, etc. Também não dá para se sair
correndo. Assim, há de se cortar o mal pela raiz, sendo chato.
Hoje a raiz
veio junto. Quem já tem muitas horas de praça acha que já viu tudo, mas
sempre há mais para ser visto. A abordagem de hoje foi feita por uma mulher
na casa dos setenta, eu diria. Com certeza, ela só votaria por opção, não
por obrigação. Era uma mulher um tanto rústica, com a aparência muito mal
cuidada de quem trilhou outros caminhos ao realizar sinapses. Ou seja,
aparentava ser doida varrida, daquele tipo que pára ao seu lado, sem nada
falar, e fica a olhar de forma estranha. Então vem aquele constrangimento
terrível. Interrompi a conversa que tabulava com outra pessoa, esperando
pelo bote. Ela segurava meio pé de hibiscus, com raízes e tudo, numa das
mãos, enquanto a outra empunhava sacos sabe-se lá do quê. Na cabeça, chamava
a atenção o boné com a propaganda eleitoral de um candidato a governador nas
Eleições de 1994. Ela quebrou o terrível silêncio, sibilando:
- Se fores
para Ijuí, te faço puxa-puxa (?)!
Antes que
alguém pudesse questioná-la, ela esclareceu:
- Não é
chiclete de borracha (outro ?)!
Dito isto,
seguiu, sorrindo um sorriso sem dentes. Ficamos a pensar que estas eleições
terão bocas desdentadas de urna, mascando puxa-puxa que não é chiclete de
borracha. Será alguma mensagem cifrada? Qual será o papel do meio hibiscus?
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