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Se há
alguma coisa que eu invejo, em algumas pessoas, é a criatividade. Admiro
especialmente aquelas que conseguem solucionar qualquer problema através do
improviso. Assim é o Valmir. Ele raramente compra alguma coisa. Conserta
tudo, mesmo que a aparência não fique perfeita. Ele conserta até mesmo os
palitos de fósforo quebrados. Na praia, todo mundo sabe onde Valmir armou
seu guarda-sol. É o único que combina partes de tecido estampado com partes
de tecido floreado. Estranho, porém funcional.
Valmir se
casou com a Clara, que adora azulejos limpos. Adora, é pouco. Ela é
alucinada por azulejos limpos. Azulejos brancos. Toda a casa deles tem
azulejos brancos, em vários formatos, mas brancos. Essa mania fez com que
ela conhecesse Valmir. Eles tentavam comprar um Vaporetto. Não daqueles que
fazem as vezes de ônibus nos canais de Veneza. Eles procuravam uma daquelas
máquinas de limpeza com vapor. Clara e Valmir se encontraram em três lojas,
onde pediram o mesmo produto em falta. Na terceira vez, entabularam uma
conversa sobre azulejos brancos. Brancos e limpos, naturalmente. Azulejo
para cá, azulejo para lá, casaram-se e foram passar a lua-de-mel na Europa,
na trilha de cerâmicas deixada pelos mouros. Passaram por Ravenna, na
Itália, onde admiraram a cerâmica bizantina, seguiram por Málaga, na
Espanha, e finalizaram a viagem duplamente temática na cidade de Sintra, em
Portugal. A lamentar, somente a cor. Por que pintavam a cerâmica? Eles
ficaram a imaginar salas inteiras recobertas de azulejos brancos. Planejavam
comemorar as Bodas de Prata no Egito, onde veriam o berço do azzelij –
azulejo, em árabe. O destino e o feijão fizeram com que essa viagem nunca
ocorresse.
A mania por
limpeza dos azulejos brancos da Clara fez com que instalassem a cozinha fora
da casa, numa peça afastada. Cozinha gera sujeira, e esta é a inimiga número
1 da limpeza. Clara mantinha a cozinha original vazia, um lugar perfeito
para se admirar a sucessão de peças cerâmicas brancas. Desde que retirasse
os calçados, antes de entrar. Nada de tocar nas paredes, pois os dedos
deixariam impressões digitais. O banheiro da casa nunca foi utilizado.
Optaram por fazer a higiene em peça anexa, onde as paredes e o piso foram
recobertos com grandes peças de cerâmica vermelha. Nada que lembrasse, nem
de longe, os maravilhosamente monótonos azulejos brancos. Planejavam ter
filhos, mas estes nunca entrariam na cozinha. O destino e o feijão fizeram
com que os pimpolhos ficassem apenas nos planos.
Clara ainda
não havia desistido do Vaporetto. Porém, não conseguia encontrá-lo em lugar
algum. E Valmir não havia desistido de improvisar um aparelho de limpeza a
vapor. O azar do casamento foi o fato da Clara sair, para buscar arroz, no
exato momento em que Valmir teve um rompante de criatividade, ao bater os
olhos na panela de pressão do feijão, atraído pelo som característico do
vapor escapando.
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