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Linoberto
desatolava o terneiro mugidor, quando viu o jipe enlameado que trazia o cada
vez mais familiar Estranho – único representante do Poder Central a
encontrar o caminho para o Lado de Cá do Cinamomo - último bastião da classe
média. O barro voava para todos os lados, denunciando um motorista mais
afeito ao asfalto do outro lado do cinamomo. Numa das raras comunicações com
o governo do estado, informaram da impossibilidade das máquinas melhorarem a
estrada, pelo simples fato de não conseguirem encontrá-la.
Estranho
desceu sorridente do jipe que trazia identificação do Ministério da Cultura.
Ele trouxe um passageiro, homem de estatura média, cabelos castanhos,
aparência comum e vestido discretamente. Aguardaram que Linoberto acabasse
de desatolar o terneiro, que mugiu de alívio, e acompanharam-no ao Bar
Restaurante e Borracharia 12 Irmãos, onde já lhes esperava uma garrafa da
"boa". Linoberto não se conteve, e atropelou o protocolo:
- O que foi
desta vez? Seremos forçados a aprender uma dança típica do Quirguistão, só
porque aprovaram uma lei para tanto?
- Calma,
Linoberto. Nada disso. Antes de mais nada, deixe-me apresentá-lo ao
Secretário Extraordinário Para Assuntos Lingüísticos, Sr. Manuel Vaz
Cascais.
- Prazer! –
Linoberto apertou a mão dele, com firmeza, enquanto pensava que, pela
aparência, o sujeito nada apresentava de extraordinário.
- Przer! –
o nada extraordinário lhe devolveu o cumprimento, com forte sotaque d'além
Atlântico.
-
Português? – Linoberto ficou curioso.
- Não, na
vrdad não! Sou brsleiro.
- Mas, por
que fala desse jeito?
- Bem, stou
a me prprar para rprsntar o gverno na rnião dos países de poplação lsófna.
Assm, já stou a trnar o staque.
- Ele não
fala o Português daqui? – Linoberto olhava para o Estranho, que consultava
um livro intitulado Dicionário Português-Português.
- É um
pouco diferente, mas dá para se entender. – disse o Estranho – Depois de
algum tempo, e de ler os 8816 versos dos Lusíadas.
- Bem, sja
cmo for, stá a contcer a VII Cmeira – Cimeira - dã Cmnidade de Países de
Lngua Prtguesa. Como o gverno prtguês crou um fundo de 30 mlhões de Euros,
stamos prveitando pr dvlgar a rforma rtogrfica da Lngua Prtguesa.
Por
incrível que pareça, Linoberto começou a entender o homem. Havia uma regra
que permitia a tradução do português para o português. Era suficiente
acrescentar algumas vogais em meio às primeiras consoantes. Ele passou a
traduzir o que o lusófono falava, para o Sétimo, que acumulava os cargos de
Prefeito do Lado de Cá do Cinamomo, garçom e borracheiro do 12 Irmãos. O
Sétimo confundiu cimeira com cinamomo.
- Onde eles
falam essa língua, também tem cinamomo?
Linoberto
tentava descobrir qual seria a nova lei idiota que haviam votado do outro
lado do cinamomo.
- Certo,
mas o que nós temos a ver com isso, do Lado de Cá do Cinamomo?
- Exclente
prgunta, gajo! – o Vaz Cascais ficou tão entusiasmado que o terneiro mugiu
em resposta. Um mugido estranho, sem vogais. Apenas "Mmmmmmmm!".
- O Gvrno
Brsleiro assnou o Trtado dã Rforma Rtogrfica dã Lngua Prtguesa. Todos trão
dã prnder a scrver dã frma pdrnizada.
O Sétimo
parecia entusiasmado:
- Eles
darão curso dessa língua, de graça? Aí estava uma realização a ser colocada
no seu currículo, para a próxima eleição.
- Todos
terão de reaprender nossa língua. Todos os livros serão reescritos, usando a
nova Língua Portuguesa, que será escrita por 210 milhões de pessoas no
mundo, que têm o português como língua pátria – foi a vez do Estranho se
entusiasmar. - Todos falarão a mesma língua, no Brasil, em Portugal, Angola,
Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Linoberto
logo percebeu que Portugal seria o grande beneficiado, pois venderia mais
livros ao Brasil. Os outros apenas fariam número, pois sua população, ou é
analfabeta, ou não tem recursos para comprar livros. E o Brasil pagará a
conta, é claro.
- Que coisa
mais besta! – Linoberto não se conteve.
- Besta lex,
sed lex! – A lei é besta, mas é a lei! – afirmou o estranho.
Quando
Linoberto chegou a casa, Maria esperava na porta.
- E aí,
Lino, soube que o estranho esteve aqui, e trouxe um estrangeiro com ele.
- Era um
estrangeiro de idéias, vendendo uma ridícula reforma ortográfica, fruto de
um tratado que seremos forçados a engolir, graças à outra lei besta.
- Por que
nós, Lino, se os do lado de lá do cinamomo nunca nos encontram para outras
coisas.
- Porque
aqui não tem a tal de Internet.
- Não
entendi a relação. – Maria franziu a testa.
- É
simples, Maria. Aqui o pessoal ainda sabe ler e escrever. O pessoal do lado
de lá do cinamomo já não sabe ler muito bem. Os que ainda poderiam saber,
não usam mais a Língua Portuguesa. Eles usam uma linguagem truncada, o
Internetiquês, de onde os acentos e as vogais sumiram faz muito tempo.
Outros vão ao shopping, aproveitar que é time de sales off, e aproveitam
para fazer um upgrade do ROI – Return Of Investiment. Tudo dentro do budget,
é claro. Por isso nos escolheram, para iniciar a conversão dos professores.
- E agora,
Lino? O que acontecerá se converterem professores e o tal do tratado não der
certo?
- Não vai
dar problema. Falei com o Sétimo e pedi para mandarem o Décimo para aprender
a nova ortografia. Aquele que dá aulas de História Antiga.
- O que
caiu do cinamomo?
- Esse
mesmo. Depois do tombo de cabeça, ele perdeu a memória recente. Não se
lembra de nada que aconteceu no dia anterior. Os alunos dele adoram essa
característica. A reforma ortográfica entrará por um ouvido, e sairá pelo
outro. Ele não consegue aprender nada novo, por isso dá aulas de História
Antiga.
- E então,
Lino?
- Então os
do outro lado do cinamomo, deverão adiar novamente a implantação dessa
besteira. E nós escreveremos num dialeto português que só será conhecido do
Lado de Cá do Cinamomo.
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