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Caminhar na rua é coisa de pobre. Rico caminha na esteira.
Pois, lá vou eu. Desfruto este sábado maravilhoso de primavera. Nem frio,
nem quente, apenas perfeito. Deixo a esteira para trás, já que nem a tenho.
Opto, compulsoriamente, pela rua. Maravilha. Sigo, pela 24 de Outubro, e
paro para atravessar a Cel. Bordini Flores. Quem lá sabe que a Bordini é
Flores? Aperto o botão e aguardo, conforme instruções. Aguardo, aguardo e
aguardo. Quando já me esqueço do que fui fazer lá, o bonequinho do sinal
muda, de vermelho, para verde. Aguardo ainda a passagem dos últimos 27
carros, que queimaram o sinal, e inicio a longa travessia. A visão do boneco
caminhante verde é obstruída, repentinamente, pelo ônibus 4326. Nenhum carro
passa, somente aquele imenso ônibus 4326, vindo da 24, ignorando o sinal e
ingressando na Bordini, o Flores se foi, de susto. Ficamos, eu e o
bonequinho verde, nos encarando. O 4326 se vai, Bordini abaixo, não antes de
uma brecada, para que o motorista pudesse gritar qualquer coisa a respeito
dos pedestres idiotas que, como pinos de boliche, acreditam nas carreirinhas
brancas ornadas pela luzinha do boneco verde. Agora, mais calmo, percebo meu
erro. Não usei o Novo Sinal. Besta, eu. Sou retrógrado, escrevo com tremas e
atravesso no sinal, sem medir conseqüências. Saramago pode escrever daquele
jeito, sem medo, porque é português. Nós, brazucas, temos de matar as idéias
e fazer o Novo Sinal. Saramago desdenhou a Reforma Ortográfica muito antes
de ela sequer ter sido imaginada. Se Cabral houvesse navegado segundo um
manual escrito pelo conterrâneo, Nobel das letras, seríamos groenlandeses.
A verdade é uma só, sinto-me ridículo fazendo o Novo Sinal.
A luz vermelha, na cara do motorista do 4326, o bonequinho verde, a faixa de
retenção, a faixa de pedestre, a Lei e um mínimo de civilidade deveriam ser
suficientes para pará-lo. Mas, não são.
De alguma forma, apesar do 4326, consigo chegar a Redenção.
Na volta, evito a 24 de Outubro, pois temo o retorno do 4326. Prefiro descer
a Padre Chagas, onde há muito de belo. Belas pessoas, belas lojas, tudo
belo. Tenho dificuldade para cruzar o passeio do café chique. As mesas
ocupam a passagem, e eu necessito de mais espaço. O único espaço que ainda
poderia servir está ocupado pelas mascotes mastodont terrier de duas
senhoras, vestidas de meninas, que bebericam champagne, deixando marcas
indeléveis de batom nos cálices. Um arroto de Bollinger transforma qualquer
bafo de pudim de gambá em autêntico parfum de pouding de putois. Uma
sorridente garçonete percebe o meu embaraço e avisa: mesmo de pé, devo
consumir alguma coisa. Afinal, estou ocupando espaço.
Corro para a Farrapos, no Baixíssimo Morro Ricaldone.
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