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Levou 37 anos, mas, aconteceu. Demolélio encontrou um
livro, O despertar dos deuses, do finado Asimov. Em primeiro lugar, faz-se
necessário apresentar o Demolélio, já que ele vive em um universo paralelo
ao nosso. Parece confuso. Porém, é muito mais confuso do que parece. Em
poucas palavras, ele é o um ex-descendente dos representantes de uma antiga
ONG, os Pobres Cavaleiros do Rei Salomão, também conhecidos pelas
designações Pocaresa e Templários. Pois bem, esses cavaleiros eram
mercenários para lá de ricos, até que endividaram um político importante, o
tal de Guilherme de Nugget. O sujeito não deixou por menos e conseguiu que o
manda-chuva, chamado Clemente Vê, nada clemente, terminasse com a ONG
medieval. Depois disso, os sobreviventes da confraria se esconderam.
Guardavam segredos milenares. Conta a lenda urbana que os Pocaresas
escondiam um objeto fantástico, um cálice sagrado.
Demolélio caiu na mão de agiotas e ficou na mesma situação
do Nugget, quebrado. Como não havia mais Clemente, teve uma idéia, coisa de
empreendedor. Comprou uma xícara pavorosa, numa loja de 1,99 e tentou
vendê-la aos confrades, que até então procuravam a famosa porcelana. A
situação era embaraçosa, a ONG havia perdido a xícara, em algum momento do
passado. Contudo, ele não contava, nem com a presbiopia, nem com a marca da
xícara. Qual foi o idiota que colocou marca numa xícara de 1,99? A marca
estava ilegível, mas, lia-se claramente made in Biguaçu. Desmascarado,
Demolélio vê-se na rua, ninguém mais lhe dá emprego ou ajuda. Os Pocaresas
continuam procurando pela xícara e todo mundo acredita que eles a têm.
A rua fez um estrago considerável no semblante do
ex-cavaleiro de Salomão. Barba e cabelos se misturam num emaranhado que só
pode ser definido como pêlo. O sorriso lembra uma ficha de compensação, puro
código de barras.
Demolélio revirava uma lixeira, lá pelo Bonfa, quando
encontrou o livro. Trinta e sete anos após a publicação, os olhos embaçados
devoravam as páginas de uma história estranhíssima. Seria melhor não
aumentar a confusão, mas é necessário. Em mais umas poucas palavras, alguém
trocou uma amostra de tungstênio-168 por uma de plutônio-168, num
laboratório. Rarará, dirão, plutônio-168 nem existe! É verdade. Qualquer um
sabe disso. Além de não existir, não pode ser obtido, nem pela transmutação
por decaimento. O personagem, Dr. Hallan, logo conclui o óbvio, aquela
amostra veio de um universo paralelo. Em pouco tempo, alguém tem a idéia de
construir um dispositivo que troca o estável tungstênio-168 pelo instável,
portando físsil, plutônio-168. O que é estável aqui, torna-se instável lá, e
vice-versa. O que parece uma fonte inesgotável de combustível nuclear, na
verdade, mostrar-se-á como um esquema que levará à destruição de ambos os
universos.
Demolélio coça os pêlos da cabeça. Ele vive em um universo
paralelo, que não é o mesmo daquela bela mulher que passa correndo ao lado
dele, fazendo jogging, sem vê-lo. O código de barras do sorriso dela não tem
barras, só brancos. Aquele livro o fez lembrar que outro mundo existe. O que
acontecerá, quando interagir com o seu, ele já sabe. Destruir-se-ão,
mutuamente. É puro plutônio-168. Confuso, porém, físsil prá caramba!
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