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Tarde abafada. Tudo anda lento. Até as moscas se arrastam.
É difícil vencer o cansaço. Em dia como este até a própria existência leva à
exaustão. Os ombros do Roberto pesam uma tonelada. Ele chega e se joga na
poltrona modernosa da antessala do chefe. Pereira já está lá, estatelado na
outra poltrona, arrastando atrás de si o mesmo ar de cansaço. Distrai-se
navegando pelo celular. Eles se cumprimentam com um aceno. Participarão da
última reunião do dia, se Deus e o chefe quiserem, não necessariamente nessa
ordem.
Roberto tira do bolso um sanduíche amarrotado. Passou pela
cantina, pois a pauta da reunião é longa. Havia escolha, entre os sanduíches
de chester, bacon e salame. Optou pelo primeiro, apesar de não imaginar a
cara de um chester. Todos apresentam algo em comum, maionese, muita
maionese, muita, mesmo. Ele está preparado. Traz vários guardanapos de papel
e improvisa um babeiro. Do primeiro sanduíche natural ninguém se esquece,
principalmente a camisa. Maquinalmente, Roberto oferece o lanche ao Pereira,
que recusa e se queixa de dor de barriga. Coisas do estresse provocado pela
vida de entra e sai em reuniões. Trinta anos de muita tensão, metas,
cobrança de resultados e enxugamento.
Roberto fura o invólucro do lanche e meleca o dedo com
maionese. Comida de estagiário, pensa. Afasta o plástico e morde com o canto
direito da boca, tomando o cuidado de inclinar a cabeça para a esquerda, de
modo que o excesso de maionese escorra para o babeiro. Sempre escapa um
pouco e empasta rosto e dedos. Ele esfrega o guardanapo impermeável no
rosto, aumentando a área melecada. Os traços de maionese se estendem da
orelha ao nariz. O tomate picado cai, pois o pão seco deixa o conteúdo
vazar. Enquanto equilibra uma ervilha com a língua, Roberto observa a sala.
Gastaram um bom dinheiro nela. Melhor do que isso, só na Diretoria, no andar
de cima. Olha para o teto, pela primeira vez, e observa que ele é de vidro,
assim como o piso do próximo andar. É estranho olhar as pessoas dessa forma.
Vê muitos sapatos e sandálias, pois há algum evento social ocorrendo sobre a
sua cabeça. Olha direto para cima, e tomates e ervilhas fogem do controle.
Pudera, há uma mulher de saia exatamente sobre o lugar onde ele está
sentado. Ele fica lá, boquiaberto, olhando diretamente para cima. Esquece um
pouco o sanduíche e a maionese e, ainda boquiaberto, olha para o Pereira,
que, pelo visto, também viu aquilo. Sem tirar os olhos do teto, ele pergunta
ao Roberto:
- Sabe quem é?
- Não, Pereira, você sabe?
- Sei, é a Ritinha, da Contabilidade.
Roberto pensa, em meio a um ataque repentino de torcicolo,
em como o Pereira a reconhece, por aquele ângulo, já que tudo que vêem são
duas solas de sapatos e um par de longas pernas que sobem até um lugar que
se assemelha ao mapa da Groenlândia.
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