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Paulo Heuser

Escritor

O mapa da Groenlândia

 

Tarde abafada. Tudo anda lento. Até as moscas se arrastam. É difícil vencer o cansaço. Em dia como este até a própria existência leva à exaustão. Os ombros do Roberto pesam uma tonelada. Ele chega e se joga na poltrona modernosa da antessala do chefe. Pereira já está lá, estatelado na outra poltrona, arrastando atrás de si o mesmo ar de cansaço. Distrai-se navegando pelo celular. Eles se cumprimentam com um aceno. Participarão da última reunião do dia, se Deus e o chefe quiserem, não necessariamente nessa ordem.

Roberto tira do bolso um sanduíche amarrotado. Passou pela cantina, pois a pauta da reunião é longa. Havia escolha, entre os sanduíches de chester, bacon e salame. Optou pelo primeiro, apesar de não imaginar a cara de um chester. Todos apresentam algo em comum, maionese, muita maionese, muita, mesmo. Ele está preparado. Traz vários guardanapos de papel e improvisa um babeiro. Do primeiro sanduíche natural ninguém se esquece, principalmente a camisa. Maquinalmente, Roberto oferece o lanche ao Pereira, que recusa e se queixa de dor de barriga. Coisas do estresse provocado pela vida de entra e sai em reuniões. Trinta anos de muita tensão, metas, cobrança de resultados e enxugamento.

Roberto fura o invólucro do lanche e meleca o dedo com maionese. Comida de estagiário, pensa. Afasta o plástico e morde com o canto direito da boca, tomando o cuidado de inclinar a cabeça para a esquerda, de modo que o excesso de maionese escorra para o babeiro. Sempre escapa um pouco e empasta rosto e dedos. Ele esfrega o guardanapo impermeável no rosto, aumentando a área melecada. Os traços de maionese se estendem da orelha ao nariz. O tomate picado cai, pois o pão seco deixa o conteúdo vazar. Enquanto equilibra uma ervilha com a língua, Roberto observa a sala. Gastaram um bom dinheiro nela. Melhor do que isso, só na Diretoria, no andar de cima. Olha para o teto, pela primeira vez, e observa que ele é de vidro, assim como o piso do próximo andar. É estranho olhar as pessoas dessa forma. Vê muitos sapatos e sandálias, pois há algum evento social ocorrendo sobre a sua cabeça. Olha direto para cima, e tomates e ervilhas fogem do controle. Pudera, há uma mulher de saia exatamente sobre o lugar onde ele está sentado. Ele fica lá, boquiaberto, olhando diretamente para cima. Esquece um pouco o sanduíche e a maionese e, ainda boquiaberto, olha para o Pereira, que, pelo visto, também viu aquilo. Sem tirar os olhos do teto, ele pergunta ao Roberto:

- Sabe quem é?

- Não, Pereira, você sabe?

- Sei, é a Ritinha, da Contabilidade.

Roberto pensa, em meio a um ataque repentino de torcicolo, em como o Pereira a reconhece, por aquele ângulo, já que tudo que vêem são duas solas de sapatos e um par de longas pernas que sobem até um lugar que se assemelha ao mapa da Groenlândia.

 

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