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Anna Kovács Szabóné nasceu na Hungria. Ela é um daqueles
exemplos de pessoas que viveram intensamente a História. Poucos sabem da
vida dela, talvez pela sua discrição, talvez pela dificuldade para se
expressar corretamente em português. Anna imigrou com o finado marido,
András Szabó. Fugiram do nazismo. Saíram da pequena Domonyvölgy, aos pés do
que hoje é a Gödöllöi Dombvidék Tájvédelmi Körzet. Anna chora de saudades do
falecido. Chora também pelo que deixou para trás. Aquele, sim, é um povo que
honra seus tremas. O jovem casal fugiu, através do Adriático, a bordo de um
barco que transportava chucrute. Deram em Malta, de onde foram levados a
emigrar, através de um navio mongol seqüestrado por piratas somalis. Após
oito meses de viagem, chegaram ao porto de Rio Grande, no sul do Brasil.
Dali eles foram levados à pequena Nova Ludovica. Foram assentados em meio
aos descendentes de imigrantes prussianos, já que dominavam a língua falada
pelos outros órfãos do Império Austro-Húngaro.
Os primeiros tempos foram difíceis, como também o foram
todos os demais. Contudo, András abriu uma selaria, e dela tirava seu
sustento. Anna se dedicou a fabricação de pães e biscoitos da saudosa
Magyarország, a Hungria, em húngaro. Pobre pátria mãe, invadida pelos
magiares, mongóis, turcos, habsburgos, russos e, finalmente, pelos
mecdonaldos. Se os bárbaros modificaram os costumes de lá, Anna preservou-os
aqui. O segredo do sucesso dos produtos fabricados pela Anna se chamava
mákszem, as sementes de papoula, cuja importação foi recentemente
regulamentada pela Anvisa, ou seja, ninguém mais consegue obtê-las. Os
fregueses se foram. Anna protestou, em húngaro e em vão. A importação não
está proibida, está apenas regulamentada, dizem. Antes estivesse proibida,
pois assim, estaria liberada, como tudo está, nesta terra que recebeu o
casal Szabó de braços abertos e papoulas fechadas. Os pães de Anna foram
enquadrados pelo Escritório contra Drogas e Crime da Junta Internacional de
Fiscalização de Entorpecentes (JIFE), das Nações Unidas.
Apesar desse formidável obstáculo, apenas mais um na saga
dos Szabó, a vida segue. Anna poderia resignar-se e descansar, pois conta
com a aposentadoria de quase dois terços de salário mínimo. Mas, não! Quem
sobreviveu à travessia do Adriático, a bordo de um transporte de chucrute,
não esmorece tão facilmente. Ela transferirá a fábrica doméstica de pães
para o Rio. Substituirá a semente de papoula por outra, verdinha, de mais
fácil obtenção, não regulamentada, porém, proibida, portanto, abundante.
N.A.: Este texto é um conto. Portanto, é ficção.
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