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A 55ª Feira do Livro de Porto Alegre se foi. É hora do
desmanche. Vão-se as barracas, ficam as lembranças. Dessa feira, em
particular, não me esquecerei. Afinal, dei o meu primeiro autógrafo. E não
foi só um, houve até fila. Já ouvi críticas a respeito disso, dizem que mãe
na fila não conta. Inveja. Quem diz isso não tem mãe, ou pior, ela não veio.
Mães à parte, eu realizei parte do sonho e vi a feira pelos fundos, onde as
coisas acontecem. Estive nos bastidores.
Foi lá, de caneta na mão, que percebi a crueldade
demonstrada por alguns pais do passado. Inventaram nomes inimagináveis,
saídos, na melhor das hipóteses, de um jogo cata-palavras. Hermeneuse não é
nome de gente. Pode até ser nome de ciência humanística oculta, mas de
gente, não é. Só não disseram isso para os pais da própria, e o escrivão
deve estar contando essa história aos netos. Não é conversa, não, vi-me cara
a cara com a Hermeneuse e dei-lhe um autógrafo. Houve também a seção dos
gregos, representada pelo Achylles, com dois eles, para ficar bem Aquiles,
mesmo. Tudo bem, afinal, é grego, mas quem consegue, fora da Grécia,
escrever Achylles sem parar para pensar? Vendo assim, escrito, parece fácil.
Lá, na seca, dá um branco.
Mudos deveriam ser proibidos de pedir autógrafos, a não ser
que escrevam o nome em um pedaço de papel. Aí se incluem os que falam muito
baixo em meio à algazarra feita pela mãe que está na fila. Seu nome, por
favor? Hmmpfgh... Como? Hmmpfgh... Perdão? Hmmpfgh...! Seu Hmmpfgh se
escreve com agá mudo, não é? Hmmpfgh...!
Confesso que eu morria de medo de que não aparecesse
ninguém, nem a mãe. Haverá coisa mais frustrante, para um escritor, do que a
ausência de leitores ávidos por autógrafos? Dá um frio, só de pensar no
vazio causado pelos intermináveis 30 minutos de espera por alguém que não
virá. Na hora, serve até engano, como autografar o livro do que entra lá por
engano. Outra tática pode ser a oferta de livros aos doadores de sangue,
além do lanche grátis.
Escrever um livro parece fácil, mas não é. Não basta a
escolha do assunto. Tem que ser um assunto que interesse alguém. Caso
contrário, não chega nem no balaião. O segundo passo, não menos importante,
é escrevê-lo. Depois, vêm as revisões, revisões e mais revisões. Há outros
problemas, menos óbvios, como financiamento, edição, divulgação, registro,
et caetera e tal. Vencidos todos os obstáculos, ei-lo, novinho em folha e
cheirando à tinta. É o momento de relaxar e partir para a sessão de
autógrafos. Contudo, além de assiná-lo, faz-se necessário escrever alguma
coisa. Então, surge o dilema, escrever o quê?
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