|
Zé descobre que a vida prega peças. Algumas boas, outras
nem tanto. Ele se vê cara a cara com a recepcionista do setor de emergência
do hospital. Quem trabalha na emergência não sabe o que é emergência, pois
dela fez rotina. Documento, carteira do convênio e as perguntas de praxe,
sempre iniciam assim. Zé olha para a sala de espera, com o canto do olho.
Pelo menos não está repleta. Duas moças escoram-se, uma na outra, com cara
de enfado. A que tem o dedão do pé inchado e preto faz careta de dor. A
outra a consola. Ambas têm cabelo preto, cortado exatamente da mesma forma,
e parecem fugidas de um filme do Peter Pan. Riem, agora. Ao lado delas, um
jovem com cara de insuficiência de tudo senta-se com quem deve ser a mãe.
Triagem em até dez minutos, realizada por um enfermeiro,
atendimento pelo médico em até duas horas, avisa a recepcionista. A
emergência está lotada porque o hospital está lotado. Na porta que leva à
área de atendimento há uma tabela que relaciona a gravidade do caso com o
tempo de atendimento, através de um sistema de cores. Coitados dos azuis,
sabe-se lá quando serão atendidos. Felizes dos vermelhos. Se não morrerem
antes de chegar lá, terão atendimento imediato. Os verdes terão inveja dos
amarelos. E se o tal do enfermeiro que faz as vezes de porteiro da salvação
for daltônico? O rapaz sentado ao lado da mãe pende a bombordo, com o olhar
opaco. A vida parece tê-lo deixado. Ele está lá cumprindo alguma estranha
formalidade, antes que venham buscá-lo de vez. A mãe aparenta resignação,
limitando-se a segurar sua mão, de uma forma que só as mães sabem.
Assina aqui, assina ali e é só esperar pelo chamado do
porteiro da salvação. Um homem calvo, de camiseta amarela, anda de um lado
para o outro, sempre olhando para o celular. Transborda de ansiedade. Se não
estiver esperando notícias de alguém que está do outro lado da porta, que
lhe dêem uma ficha vermelha, ele é o que mais precisa de uma. O portal da
salvação se abre, e surge o enfermeiro, de jaleco longo e estetoscópio
passado ao redor do pescoço, numa atitude definitivamente profissional. Quem
usa estetoscópio daquela forma sabe o que faz, com certeza.
O chamado do seu nome faz Zé sair do quase transe. O
enfermeiro o leva a uma pequena sala de atendimento onde há aparelhos de
toda sorte. Destaca-se um que emite sons estridentes e exibe os sinais
vitais de ninguém, parecendo reclamar da solidão. Fica pouco tempo só, pois
Zé é amarrado, tem o braço quase esmagado, prendem-lhe sensores e detectores
que fazem a máquina vomitar sons, números e gráficos. As perguntas sucedem
as medições. Qual é a cor do sangue dele? Haverá outra? Sangramento dá
prioridade, mesmo que pouco sangue só dê ficha amarela. Qual será a vazão
necessária para se conseguir uma vermelha? Na próxima vez ele trará
fenolftaleína e amônia. Notarão a diferença? Sangue do diabo. Zé não é
santo, mesmo. Tudo bem, a ficha amarela lhe concede um médico, só para ele,
em menos de meia hora. O atendimento é perfeito, o diagnóstico não.
Precisará de outro médico, um especialista, que chegará em 40 minutos. Leva
menos de 30. O especialista é rápido em tudo, diagnostica, fala, prepara,
anestesia, corta, remenda, receita e libera, tudo em menos de hora, com
precisão cirúrgica. Zé e o especialista chegam em casa antes das 23 horas.
Apesar de tudo, sentem-se extremamente aliviados.
Não perderão capítulo inédito de House.
|