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Encontrei-me com o Seu Clistério. Há muito que não o via.
Tentei evitá-lo, mas não consegui. Ele até que é simpático, porém, é o pior
tipo de generalista, o que é especialista em tudo. Eu fazia o que há de
melhor para se fazer numa sala de espera, esperava, quando o Seu Clistério
surgiu. Escondi-me atrás da Caras de dezembro de 2003, em vão. O que de mim
sobrou para fora foi suficiente para que ele me reconhecesse. Eu assistia a
um monótono documentário exibido na TV de 14’’ da sala de espera. Os
oftalmologistas fazem a triagem assim. Quem consegue descobrir o que está
passando, ganha atestado. Seu Clistério é um dos últimos técnicos
universais, aqueles que consertam qualquer coisa, inclusive aquelas que não
estão estragadas. Se não há defeito, ele o cria. A vida de mecânico de
aviões, de navios e do relógio da torre de Westminster, o levou a girar
mundo. Ele conheceu toda a Europa. Essa bagagem cultural o transformou em
chato pedante da mais alta ordem. Ele sabe mais de tudo e sabe melhor.
O cumprimento desinteressado não me livrou do ataque.
- Você, por aqui? O que veio fazer?
Senti vontade de lhe responder que eu viera vender
rabanetes ao médico. Ora, o que alguém poderia fazer, na sala de espera de
um médico, senão esperar? Como bom chato, ele sentou-se ao meu lado, para
ajudar a esperar. Certamente veio consertar algo que o médico pensava estar
estragado. Ele percebeu meu interesse pelo documentário e ficou a
observá-lo. Pronto, pensei, ele está arrumando munição.
Islam Karimov, ditador do Uzbequistão, desfilava na tela.
Seu Clistério bateu as palmas das mãos nas coxas e ajeitou-se na cadeira,
enquanto abria o sorriso largo que prenunciava o bote. Não deu outra.
- Você já reparou?
Eu sempre odiei esse tipo de ataque, completamente
indefinido. Reparar no quê? Ele me encarou com aquele sorriso interrogativo
do professor para o pupilo idiota. Nada respondi e voltei minha atenção à
TV. Ele não desistiu.
- Já reparou na coincidência?
Fraquejei. Dois ataques indefinidos era demais. Não havia
como fingir que não o ouvira, pois ele é do tipo que cutuca seu braço
enquanto fala. A pergunta me escapou.
- Qual coincidência?
Ele apertou os olhos, como que demonstrando fisicamente sua
superior esperteza. Nessas horas, ele faz um hiato, antes de prosseguir.
Suspeito de que ele quer aumentar o clima de suspense.
- Ora, salta aos olhos!
Ele conseguiu. Senti-me perfeitamente idiota. Certo da
vitória, ele continuou, sempre sorrindo.
- Você não reparou que esses grandes ditadores foram
eleitos, algum dia? Pode não ter sido através da eleição direta, mas foram
eleitos, na pior das hipóteses, por alguém que foi eleito pelo povo. O povo
os adorava! Hitler, Mussolini, Vargas, Salazar, Karimov, todos foram
eleitos! Depois, através de conchavos políticos, perpetuaram-se no poder.
Tive de dar mãos à palmatória. Para variar, o homem estava
certo, reconheci a contragosto. Tentei também demonstrar alguma sabedoria.
- Ora, Seu Clistério, o senhor não quer que eu acredite que
isso poderá repetir-se, aqui?
Ele sacudiu vigorosamente a cabeça, demonstrando
impaciência,
- Não, não, não! Você não percebeu, ainda? Não existem mais
nações, nem patriotismo. Não importa quem for eleito, se for eleito e como
for eleito. O poder não está na mão dos eleitores.
- Está na mão de quem, então?
Ele demonstrou impaciência, novamente. Revirou os olhos e
bateu novamente com a palma das mãos nas coxas.
- Ora, o poder está nas mãos dos acionistas!
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