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Não o via há muito tempo. Um ano, creio. Eu andava pela
Riachuelo, na direção da Usina do Gasômetro, quando me deparei novamente com
a figura de Gianfranco Anarchico, o Gian, como é conhecido por aquelas
bandas. Aconteceu no sábado passado, dia que, de tão perfeito, que me fez
desistir de emigrar para a Índia das Monções, na procura de um lugar mais
seco para viver. O Gian é aquele que defende a criação de um sistema de
eleições permanentes, o Continua perpetua elettorale. Ele é um dos últimos
anarquistas italianos que perambulam pelo mundo. Tenta disseminar a
mobilidade sociopolítica desprovida de hierarquia institucionalizada, a
popular bagunça. Seu habitat é o baixo Alto da Bronze, nas imediações do Bar
da Elvira, reduto cult-liberal do Centro.
A sede me levou a comprar água, e não resisti a uma
paradinha no bar. Elvira catava moscas sobre o vidro embaçado do balcão
expositor de quitutes de outrora, como os irônicos bolos ingleses, os
croquetes e os pastéis de, digamos assim, carne moída. Não consegui evitar o
Gian, que me reconheceu de imediato. Abriu largo e semidentado sorriso,
emoldurado pelo rosto magro. O ciao, gritado alegremente, denunciou o
reconhecimento. Gian combina com a atmosfera fedorenta de cerveja e de
fritura do Elvira. Aliás, tudo ali se encaixa perfeitamente. Copos de
requeijão, mesas encardidas, cadeiras de madeira de espaldar reto, moscas
pegajosas, a cortina floreada que leva à cozinha, cerâmica gretada até a
metade da parede. Apesar dos declarados 72, Gian, por detrás dos óculos
redondos, parece vir dos tempos em que a Riachuelo se chamava Rua do
Cotovelo.
Gian fizera novas vítimas. Um trio que fora beber algumas
no Elvira caiu no papo do toscano. A discussão corria solta, e o assunto era
a corrupção. Como de outra vez, Gian entrou na conversa com o copo vazio e o
corpo. Servia-se da cerveja deles como se fosse sua, prova de que todo
anarquista tem pelo menos um pouco de socialista. Os dois rapazes estavam
enfezados. A moça ouvia quieta. Seu rosto moreno apoiava-se sobre o joelho
da perna erguida sobre a cadeira. Aparentemente alheia, ela furungava entre
os dedos incrivelmente perfeitos do pé, como se procurasse por alguma
sujeira que não estava lá. De quando em quando, afastava a mecha de cabelo
liso e negro que lhe caía sobre a testa.
O velho serviu-se novamente da cerveja dos outros. Fingiram
não perceber. Ele alisou os cabelos brancos, presos em rabo de cavalo,
semicerrou os olhos azuis e gritou.
- As instituições são corruptas. No sistema de mobilidade
sociopolítica desprovida de hierarquia institucionalizada a corrupção não
existe, pois não há ninguém que tenha tanta influência a ponto de se tornar
alvo da corrupção. Não há foco de poder!
O rapaz com boina de Bob Marley defendia a forca, sem a
cedilha, para todos os políticos. Ele inclinava a cadeira para trás, até
quase perder o equilíbrio. Dona Elvira distribuía mata-moscadas a rodo. Os
cadáveres dos insetos confundiam-se com as manchas da cerâmica encardida do
piso. O anarquista não esmorecia.
- Sem hierarquia, não há corrupção!
O segundo rapaz bebeu todo o conteúdo do copo, antes que
Gian o fizesse, e falou, com voz de tenor.
- A solução pode ser a Anapro, a Agência Nacional da
Propina, órgão regulador da corrupção. A ela caberiam a fiscalização, a
regulamentação e a elaboração do Plano Nacional de Corrupção. Esse órgão
teria independência administrativa e econômica, sem submissão a qualquer
hierarquia de governo. Estabeleceria a tabela de referência para a cobrança
de propinas.
A moça examinava o vale entre os dois últimos dedos do pé
esquerdo, aparentemente satisfeita com o que via. A brancura daquele espaço
contrastava com o tom bronzeado dos braços e das pernas. Sem desviar os
olhos ela afastou a mecha rebelde do cabelo, com um sopro, e abriu a boca,
pela primeira vez. Com voz de menina, disse:
- Ora, isso já existe...
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