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Eis-me aqui, de pernas para o ar. Tento entender o que,
afinal, aconteceu. Vou além e tento achar um culpado. Candidatos não me
faltam. Já os tenho no rol de suspeitos: Victor Hugo, Delfim Netto, Dr.
Kenneth Cooper, Lady Ga Ga, Johann Wolfgang von Goethe e eu. O fato é que o
aquecimento global vinha afetando minhas caminhadas. Sábado, por exemplo,
comecei a caminhar e o céu veio abaixo. Caminhada frustrada. Nos dias
anteriores, então, não houve condições nem para uma tentativa. Toda história
tem que ter um início, e esta não haveria de ser diferente. Um observador
apressado poderia concluir que ela iniciou hoje. Ledo engano. No entanto,
para uma melhor compreensão dos fatos, deixemo-nos levar por esse engano.
Pensando assim, tudo se iniciou hoje, neste belo domingo de sol, coisa rara
nos dias de hoje. Dia para se saltar da cama e correr, no sentido figurado,
para a rua. Foi o que fiz. Dezoito graus no termômetro incitavam à caminhada
vigorosa e entusiástica. Lá fui eu. Caminhei um tanto, até que o chão sumiu
sob meus pés. Coisa de filme de Stephen King. Não, não é o Stephen Kanitz. O
primeiro escreve histórias de terror comum, o segundo escreve histórias de
terror econômico.
A sensação de não haver mais chão é um misto de espanto e
impotência. Você está caminhando sob o sol da primavera, o vento traz o
frescor do escapamento dos carros e o próximo passo é no nada. Simples
assim, nada. Pisei numa tampa de bueiro, de cimento, e ela girou, abrindo um
buraco por onde minha perna direita penetrou. Sem apoio, caí sobre o joelho
esquerdo, enquanto a perna direita ficava entalada no buraco. Um passante me
socorreu e retirou a tampa que prendia a perna. Livre da arapuca, fiz um
breve inventário dos danos. O joelho esquerdo estava um tanto danificado,
mas é na perna direita que se concentravam múltiplas escoriações feitas por
uma espécie de ralador gigante de legumes.
A sabedoria popular é de grande valia, nessas horas. Um
advogado apressou-se em me passar seu cartão de visita. Outro passante
recomendou que eu ficasse lá e chamasse a imprensa. Um ciclista,
completamente equipado, deu-me minuciosas instruções de como fechar
novamente a tampa do bueiro, utilizando uma corda e pedaços de madeira.
Ajudou-me muito. Por via das dúvidas tomei uma antitetânica e tratei dos
estragos.
Agora, mais calmo, começo a perceber o que efetivamente
aconteceu. Victor Hugo, o escritor francês, que não fabricava bolsas,
escreveu Les Misérables. Pois bem, esses miseráveis fugiram da França e
vieram atrás do milagre brasileiro do Delfim Netto. Enganados, não tiveram
opção senão furtar as tampas de bueiros feitas de metal. A prefeitura cansou
de repô-las e as fez de cimento. O Dr. Kenneth Cooper inventou essa moda de
se fazer exercícios físicos, que seriam ótimos para o coração. Talvez,
porém, para as pernas, não sei. Eu não fazia idéia de quem seria essa Lady
Ga Ga, até que a vizinha veio pedir o CD emprestado, logo após lavarem
minhas pernas. Dizem que eu a imitei perfeitamente, gritando gá, gá, a cada
esfregada. Goethe entrou de gaiato, pois caí na avenida que levou seu nome.
E eu, bem, eu acreditei neles!
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