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Do primeiro bueiro a gente não se esquece. Tornei-me
repetitivo depois que caí num deles. Volto ao assunto porque me encontrei
ontem com o Gervásio, na Praça da Alfândega. Em meio aos habituais
freqüentadores do local, o Perninha, o Funéreo e a Catorze Minutos, lá vinha
ele, rengueando as duas pernas, mais ou menos como eu. Alguém poderá
questionar a verossimilhança da rengueada dupla simétrica, mas, fazer o quê?
São questões puramente técnicas e funcionais. Eu não sabia do assalto dele,
não foi o primeiro, nem ele sabia do meu bueiro, o primeiro. A bem da
verdade, devo confessar que aquela não foi a minha primeira incursão num
bueiro, porém, foi a primeira involuntária. Quando eu era criança venci uma
aposta ao percorrer dois quarteirões através da recém-implantada rede de
esgoto pluvial, espero, de Santa Cruz. Isso são águas passada. Gervásio
contou-me da sua mais recente aventura, ocorrida dois dias antes. Ele fora
fazer a ceia no drive thru para pedestres, pois a noite o estava convidando
a fugir da delivery do Anthony’s Dog, o popular Lulú do Tonhão. Quando quase
alcançava o trailer de comida rápida, surgiram dois sujeitos que se
apaixonaram pela carteira dele. O relógio já se fora no quarto assalto de
1993. Disposto a salvar o que fosse, Gervásio pôs-se a correr ladeira
abaixo. Quando estava em plena debandada, calculou que sua velocidade
crescia para além do limite tolerável pelas pernas, pois o cos(Ѳ)
era muito pequeno e tornava proporcionalmente minúsculo o atrito cinético.
Em mais três ou quatro passos, ele entendeu a gravidade da situação. Com
força de atrito cinético quase nula, referida ao solo, sua velocidade
aumentava pela aceleração da gravidade, freado apenas pela força de atrito
com o ar. Graças aos céus, e ao cachorro-quente do Tonhão, sua silhueta
semi-atlética o ajudava a frear. Até que ele tropeçou. Aí a coisa se
complicou de vez, pois ele colidiu contra um corpo de massa infinitamente
maior, a Terra. Toda aquela energia cinética foi convertida em hematomas e
escoriações. Além da energia mecânica dos gritos, evidentemente. Quando
Gervásio chegou em casa, naquele estado, a mulher duvidou dele ao ouvir que
ele havia feito tudo aquilo sem a ajuda de ninguém. Sozinho ninguém
conseguiria rebentar-se tanto.
Promovemos o I Concurso de Chagas da Praça da Alfândega. Um
mostrava o joelho ralado, outro mostrava a mão esfolada. De chaga em chaga,
um apostava, outro cobria a aposta. Empatamos. Estávamos igualmente
destroçados. Havia mais algo, em comum, conforme deduzimos depois. Todo
mundo nos dizia da sorte que tivemos, afinal, não quebramos nenhum osso e
não levamos tiros. Que sorte! É verdade, temos muita sorte de morar aqui.
Como canta a música, Porto Alegre é demais!
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