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Lojas de roupas para mulheres são o inferno. Para os
homens, pelo menos. Nada há para se fazer lá dentro, senão esperar. O
problema maior é onde esperar. Aqueles lugares são repletos de araras e
mulheres que andam desordenadamente na busca de algo que nem elas mesmas
sabem o que é. Não sobra lugar onde se possa esperar. Faz parte das
estratégias de marketing não permitir que os clientes atravessem a loja
diretamente. É necessário se percorrer um labirinto confuso e cheio de
expositores. As mulheres escolhem aleatoriamente algo como 27 peças de
roupas e entram no provador, após longa espera até que um se desocupe. Ao
sair, rejeitam todas as peças e se põem novamente à caça de outras opções.
Quando finalmente encontram algo que parece satisfazê-las, acham caro e vão
embora, em busca de outra loja. Enquanto isso, os homens esperam, esperam e
esperam. E esperam.
Em outros tempos, os shoppings disponibilizavam bancos para
maridos em espera. O sujeito sentava-se e lia Guerra e Paz enquanto
esperava. Depois, inventaram o 3G, e os maridos puderam trabalhar enquanto
cumpriam seu sagrado dever de acompanhar as mulheres às compras. Essa cômoda
situação se prolongou até que alguém percebeu que poderia ganhar o dinheiro
dos maridos em espera. Instalaram cafés nos corredores e retiraram os
bancos. Os maridos viram-se no dilema da escolha entre a espera em pé e o
café. Três horas em pé azedam o humor de qualquer um. E incham os pés.
Em Punta del Este há uma loja, de aparência indiana, nome
também, que criou uma área de convivência para maridos em espera. A loja é
outra daquelas personificações do caos. Algumas clientes tentam comprar a
própria roupa. Lá se descobre que os maridos são iguais, mesmo vindos de
diversas partes do mundo. A inovação está no porta-maridos externo.
Construíram uma espécie de arquibancada, junto ao passeio público, onde os
maridos sentam-se e observam o movimento. Alguns fumam, outros arriscam até
uma olhadela nas chicas que passam. Lá pelas tantas, passa um sujeito que
toca o hino uruguaio na corneta. Atrás, vem o pior. Uma trupe de argentinos
ensaia uma desconcertante batucada. Porém, o porta-maridos se parece com o
paraíso. Argentinos, brasileiros e uruguaios ensaiam até uma conversa e
descobrem que, afinal, não são tão diferentes. Deixam de lado antigas
rusgas, observados pelos intrigados americanos e europeus; os argentinos
reconhecem que Pelé até que jogou um bolão; os brasileiros reconhecem que
Maradona chegou a jogar futebol. Vez por outra, um argentino olha impaciente
para o relógio e diz que aquilo não é possível, ninguém pode se demorar
tanto lá dentro. De pronto, vêem-se brasileiros e uruguaios a consolá-lo. É
a volta da Tríplice Aliança.
Em meio a vinte e
tantos maridos senta-se uma mulher. Todos olham-na surpresos. Ela percebe e
devolve com um “olha a discriminação!”
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