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Cem megahertz não fariam diferença, pensava eu. Estava
errado, conforme descobri depois. Tudo começou quando o sinal do meu celular
terminou. Haviam me prevenido da incompatibilidade dele com o sistema daqui.
Faltar-lhe-iam míseros 100 MHz. Consegui um aparelho emprestado que havia
participado de algum combate, pela sua aparência geral. A tampa do fundo
havia desaparecido e deixava a buchada e a bateria à vista. Parte do painel
frontal também desaparecera. Contudo, ele tinha os 100 MHz que faltavam ao
outro. Funcionava, o que era o mais importante.
Tudo estaria bem se eu não houvesse ido jantar naquele
lugar, um restaurante com vista para a marina, endereço para lá de fino,
freqüentado pelos bacanas de diversos lugares do mundo. Coloquei minha
melhor roupa e fui. À porta, fui recebido por um sujeito que era a cara do
Vincent Price. Olhou-me de cima a baixo e, visivelmente contrariado,
levou-me à mesa mais escondida no canto. Enquanto esperava pelo garçom,
pus-me a observar a fauna local, composta notadamente de pessoas em
trânsito, da segunda para a terceira idade e da riqueza absoluta para a
descarada milionardice. À mesa próxima sentavam-se um homem que lembrava o
Aristóteles Onassis e uma mulher que lembrava um misto de pavão e da Cruela.
Ele usava óculos escuros de lentes grandes, apesar da hora; ela usava um
vestido verde, muito curto, e botas de vaqueira. A pele enrugada estava
bronzeada e contrastava com o cabelo tingido de loiro. De tão esticada, ela
certamente poderia fazer sexo pelo umbigo, que já deveria lhe ficar entre as
pernas. O homem foi recebido com toda pompa, inclusive pelo então sorridente
Vincent. Garçons ensaiaram uma alegoria para conduzi-los à mesa junto à
janela com a melhor vista da marina. Aristóteles agradecia com um sutil
acenar do dedo mindinho da mão esquerda. O pavão limitava-se a levantar a
sobrancelha esquerda, em variados graus, aparentemente indicando aprovação
ou reprovação.
Enquanto eu tentava entender o cardápio, um garçom com cara
de fiscal do imposto de renda trouxe pratinhos contendo um líquido que logo
identifiquei como lavanda. Lugar chique. Mergulhei os dedos e ouvi o garçom
avisar que o chefe oferecia um caldo de ostras como sinal de boas-vindas.
Disfarcei e sequei os dedos no guardanapo. O pavão ergueu a sobrancelha,
demonstrando ter visto a gafe. Vincent continuava sua imitação da Esfinge do
Nilo. A vantagem de ser pobre, nesta terra de milionários, é esta, ninguém
nos conhece. Podemos fazer gargarejo com a água, única bebida pela qual
podemos pagar.
Meu polvo chega e parece maravilhoso. Eu nunca vi um polvo
deste tamanho. O Capitão Nemo está vingado. Além de imenso, está
corretamente preparado, ao páprica. Então, do nada, acontece. Algo vibra
dentro do meu bolso. Em seguida, ouve-se uma apologia à agressão feminina,
em forma de samba, pagode ou algo parecido. É um daqueles tchuca-tchuca no
fiofó da menina, tão apreciado pelos turistas que chegam à Bahia. Surgem
dois problemas. Um, Salvador fica a 4250 km daqui. Dois, o pessoal ao meu
redor não parece apreciar tchuca-tchuca naquele lugar. Olho para a marina,
tentando disfarçar e pego o diabo do celular emprestado. Tento desligá-lo,
sem saber como. No desespero, jogo-o no chão. Piso com força e o máximo que
consigo é aumentar o volume. As duas sobrancelhas da Cruela ameaçam tocar no
lustre. Aristóteles continua impassível. Meu chip que se exploda. Chuto o
celular para longe, por debaixo da mesa. Vincent corre para lá e para cá,
distribuindo ordens confusas. Todos os garçons procuram a origem do
tchuca-tchuca. O celular pára sob a mesa do Aristóteles. Cruela solta um
guincho agudo, e um dos seus cílios postiços cai sobre a ostra que espera
pelo abate. Ao vê-la, a mulher solta novo guincho e ameaça desmaiar. Vincent
localiza a fonte do tchuca-tchuca e a leva para a rua. Aristóteles, até
então imóvel, começa a soluçar, em movimentos crescentes, transformando os
espasmos em uma gargalhada contínua. A barriga dele bate na mesa fazendo
tilintar os cristais. Ele enxuga as lágrimas com o lenço tirado do bolso do
blazer náutico.
Minha tática dispersiva falhou. Vincent vem na minha
direção, seguido por dois garçons, com cara de poucos amigos. Aristóteles
impede seu caminho, com um gesto sutil do mindinho esquerdo, entre contidas
gargalhadas. Vincent se aproxima da mesa, agora sorrindo. Diz que aquele
cavalheiro pagou minha conta e oferece-me uma garrafa do melhor champanha da
casa. O sorridente maitre pergunta da possibilidade de que eu repita o
espetáculo de duas em duas horas.
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