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Cheguei a uma conclusão. Aqui, onde vim passar minhas
férias, só há três coisas que não são chinesas, os pêssegos frescos, o doce
de leite e os argentinos. Os pêssegos não resistem à viagem. O doce de leite
é apenas questão de tempo. Quando fui à lavanderia, descobri que lá há um
chinês argentino, ou vice-versa. É curioso ouvi-lo falar a língua de Miguel
de Cervantes. É algo tão incomum quanto uma pizza de joelho de porco. De
resto, tudo é chinês, desde as roupas até os aspargos. Quem diria, aspargos
chineses. Tudo vai ao encontro da minha profecia. Em breve, consumiremos
apenas produtos chineses e serviços indianos. Quem considera o gerúndio
paulistês chato, espere pelo gerúndio indiano.
Não cabe aqui esclarecer por que comecei a discutir com o
chinês argentino. Teve algo a ver com o fato de muitos conterrâneos meus
exibirem certo preconceito com os produtos fabricados na China. O chinês
argentino diz que o problema está na forma como enxergamos os produtos
deles. Teríamos os olhos muito esbugalhados, o que provocaria distorções.
Segundo o sino-platino, haveria um projeto em estudo, no congresso daquele
país, que incentivaria a cirurgia plástica para a correção do formato dos
olhos dos não-orientais. Quem aderisse ao plano, voluntariamente, ganharia
um par de tênis e um aipode.
Quanto ao potencial criativo dos chineses, o homem da
lavanderia apresenta argumentos irrefutáveis. Eles inventaram a pólvora, a
bússola, o guarda-chuva, o papel, a impressão, o macarrão e a 25 de Março.
Camarão empanado, tlês tipos flitos, Louis Vuitton orgânico, pilhas Duravel,
nada disso chegaria aqui se não fosse o navegador português Jorge Álvares,
que abriu a rota das especiarias da China, e o Paraguai, que abriu o resto.
É, realmente, o homem tem argumentos fortes. Contudo, eu havia de
desafiá-lo, afinal, tratava-se de um argentino, em última instância. Não
seria no futebol, assunto estranho para mim e para ele, pois não tinha
cabelos compridos, não usava lenço na cabeça nem gritava Maradona.
Apelei para a religião. Lembrei-me do politeísmo deles e do
monoteísmo dos daqui. Desafiei-o a me mostrar alguma influência religiosa
sobre nós, além do pequeno gafanhoto do Kung Fu e do templo lá de cima do
morro. Por um momento, pensei tê-lo derrotado. Percebi um breve
esbugalhamento dos seus olhos, logo transformado em sorriso
sino-platino-maroto. Ele apertou ainda mais o olhar já apertado e falou:
- Se o encontrarem novamente, leiam com atenção o que está
escrito sob aquele cálice que tanto veneram. Está em aramaico galileu, mas
está lá.
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