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Às vezes, se a gente parasse para pensar a fundo em tudo que
acontece no mundo, principalmente nas desgraças e diferenças sociais, era
capaz de pirar. São tantas realidades em conflito dentro de um mesmo espaço,
que a maior parte delas passa despercebida. Afinal, cada um tem seu “próprio
mundo” para se preocupar, e mesmo que se pense nos outros e que se faça algo
por eles, não há como sozinho “abraçar” a tudo e a todos. Cada um tem sua
rotina, seu trabalho, sua vida. O indivíduo vive diariamente a tentativa de
buscar ser aquilo que ele é capaz.
No entanto, como exercício de reflexão, às vezes é bom tentar
imaginar outras realidades que não a nossa, como forma de entender melhor o
próprio jeito de ser. Escrevo isso porque chamou minha atenção uma
reportagem publicada na revista Rolling Stone Brasil, que começou a circular
no país mês passado. A publicação é sobre música e o título da matéria era
“Trilha sonora da invasão”. O texto falava dos hits mais ouvidos entre os
soldados americanos em missão no Iraque - e aqui não vai nenhum juízo sobre
a guerra, apenas um fato.
Eles vivem sob a pressão de poder topar com a morte a
qualquer hora, em qualquer esquina. A música, portanto, passa a ser uma das
únicas formas de refúgio e relaxamento. Quase todos têm o chamado iPod,
aparelho portátil com capacidade para armazenar centenas de músicas em
formato MP3. Até aí, tudo bem. O curioso é que o tipo de som acaba sendo
determinante no preparo psicológico das tropas para encarar estradas
repletas de minas ou uma batalha sob fogo cerrado inimigo.
Um dos soldados, que já voltou para casa, contou como
encarava o receio da morte:
- Eu me preparava
psicologicamente para as batalhas escutando punk ou hardcore. Outras vezes,
tínhamos que encarar acordados turnos de 48 horas ou mais. Aí, você joga uma
efedrina (estimulante
que age no sistema nervoso) para dentro, bebe montes de café e puxa horas
seguidas ouvindo algum techno bem maluco.
Outro, explicava o motivo da escolha por canções agitadas, no
estilo mais pesado:
- Não dá para escutar uma
canção suave e sair matando gente. Você tem que fazer da morte uma coisa
corriqueira...
Parece surreal, mas é uma realidade. E bem diferente da minha
e da maioria de quem leu a matéria. É algo assim, impressionante, como as
imagens dos famintos na África, uma outra realidade perversa em um mundo do
qual fazemos parte. Afinal, somos parte do todo, apesar de não viver a
realidade de todas as partes.
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