|
Quando havia o clássico
entre os times do Boteco do Nenê e o Flamenguinho, da lomba do cemitério,
era uma mobilização. Por serem os times mais antigos e de maiores torcidas,
a cidade praticamente “parava” uma semana antes dos jogos ocorrerem. Era só
o que se falava nas rodas de bate-papo, no barbeiro, nas escolas, etc. Havia
até apostas. Grandes quantias. Bom! O próximo confronto entre as equipes
estava marcado para domingo e decidiria quem seria o primeiro colocado da
chave A, do campeonato de futebol amador.
No time do Boteco do Nenê,
havia um zagueiro chamado Valdir, também conhecido carinhosamente como
“Armário”. Acho que não preciso dizer mais nada! Pois bem. “Corria” a
história na cidade, que certa feita, um grande clube do futebol brasileiro
mandou um “olheiro” observar o futebol dele, mas ninguém nunca soube se isso
realmente aconteceu.
Apesar da estatura, Valdir
era um zagueiro técnico, considerado um dos melhores da cidade. Jogava com
classe, como se costumava dizer. Porém, nos últimos jogos do time do Boteco,
ele andava “perdendo a cabeça”. Quando jogava, não terminava uma partida
sequer, sempre era expulso. Com isso, começaram as duvidas em relação a sua
real capacidade futebolística. O treinador do time ameaçou colocá-lo no
banco de reservas. “Vetou-lhe” a vida noturna e a cerveja. – Está te matando
rapaz! Afirmava. Entretanto, não era nada disso que estava levando Valdir a
ter esse descontrole emocional. A causa estava na sua nova namorada, a
Dulcinéia. Não! Não que a Dulcinéia lhe causasse transtornos “extracampo”.
Pelo contrário, ela era uma moça recatada, de bons costumes e apaixonada
pelo Valdir. O problema “surgiu” quando os adversários descobriam que ao
elogiar Dulcinéia, fiel expectadora das partidas, o Valdir, enciumado,
irritava-se de tal maneira, que, quando não dava uma entrada fortíssima,
prendia mesmo a porrada em quem fizesse tal comentário.
Quando soube desta história,
o Gaguinho, atacante do time da Lomba do Cemitério, malandro de carteirinha,
o engraçadinho da equipe, apenas disse para os companheiros de time – Dexa
cumigo no domingo, rapaziada! E saiu a passo, gingando o seu magro corpo.
Domingo. As arquibancadas
estavam cheias. As torcidas enlouquecidas gritavam os nomes dos times sem
parar. Fazia um dia de sol e calor. Quando as equipes entraram em campo foi
aquele foguetório. Uma festa! O início da partida teve de ser atrasado em
quinze minutos por causa da fumaça. Enquanto isso, o Gaguinho aquecia,
brincando com a bola e olhando para a arquibancada, a fim de achar Dulcinéia.
Começa a partida. No
primeiro ataque do Flamenguinho, o chute a gol passa próximo da goleira do
time do Boteco do Nenê. Enquanto o goleiro buscava a bola e os times
novamente se posicionam em campo, o Gaguinho encostou-se no zagueiro Valdir,
apontou-lhe o dedo e indagou – Valdir? O Valdir desconfiado apenas acenou
afirmativamente com a cabeça. Gaguinho riu debochadamente.
Minutos depois, novo ataque
do time do Flamenguinho. O Gaguinho pegou a bola pela ponta-direita e tentou
driblar o zagueiro Valdir, que interceptou, porém, “a redonda” saiu para
escanteio. Como já é de praxe na grande área do futebol, aconteceu aquela “muvuca”.
É empurrão, puxão de camisa, gritos de intimidação. Tem de tudo! O jogador
que cobrará o escanteio amarra as chuteiras, foi então que o Gaguinho,
aproveitando-se disso, no meio do burburinho, exclamou – Como é gostosa a
Dulcinéia, namorada do Valdir! Os companheiros de time do Valdir
arrepiaram-se. Sabiam o que viria pela frente. O zagueiro Valdir olhou para
o Gaguinho, sorriu, e agradeceu tranqüilamente – Obrigado! Sou o dono...
Gaguinho não deixa por menos e rebate – Será? E parecendo estar havendo uma
“troca de papéis”, malandramente, Valdir replica – Também estou de dono do
corpinho da tua casa!
Vocês sabem como é. Malandro
que é malandro nunca perde a majestade. Gaguinho ouvindo a fala do Valdir,
rapidamente colocou as mãos na cabeça e em tom de deboche, proferiu – O que
Valdir? Saindo com o meu Mariozinho!
O último boletim médico
divulgado informou um quadro estável do Gaguinho, devendo ter alta
hospitalar em, no máximo, dez dias.
O jogo: mesmo com a expulsão
do Valdir, o time do Boteco do Nenê venceu a partida.
|