|
“Morri. Sim! Morri. Menos
mal que da melhor maneira possível. Foi dormindo. Dormi dirigindo o meu
carro. Bati em uma árvore. Acho que foi isso. Não lembro. Mas não se
preocupe, estou bem. Neste momento caminho por um corredor iluminado por
algumas velas. Nas paredes estão quadros que retratam passagens da minha
vida. No final vejo uma luz. È para lá que eles me mandaram. Não falei
neles. São os anjos. Serão anjos? Sei lá! Recepcionaram-me quando cheguei ao
céu. Será isso o céu? Nem eu sei. Esses anjos mandaram-me seguir pelo
corredor sem olhar para trás. Tenho a companhia de um outro anjo. Uma
espécie de anjo-escrivão. Os mesmos anjos da portaria ordenaram-me que eu
fosse falando pelo caminho. Nem precisaria. O tal anjo-escrivão anota até os
meus pensamentos em um livro. Ele escreve com uma pena. Um notebook está lhe
fazendo falta. Quando penso, ele coloca aspinhas, quando falo um travessão.
Legal! É por isso que você está conseguindo ler esse relato. O tal
anjo-escrivão está me olhando atravessado agora. Fim do corredor. Chego na
luz. Começo a caminhar por um tapete vermelho. Não enxergo para os lados,
está tudo escuro. Uma cadeira!”.
- Sente-se!
- Quem é? Aí meus olhos! Que
luz é essa, meu Deus?
- Chamou, meu filho?
- O quê? Deus? Jesus? São
vocês mesmos?
- Sim!
- Diabo? Diaaaabo!
- Ao seu dispor, meu jovem!
- Eu não acredito!
- Podes acreditar. Você está
no seu julgamento final. Hoje, decidiremos se você vai para o céu ou
inferno. Queres chamar alguém para te defender. Um advogado, talvez?
- Nem no meu julgamento
final eu consigo me livrar de um advogado. Chamem o meu tio Breno.
- Chamem o Breno!
- Oi, tio! Veio rápido.
- Oi! Já aviso, é 30 por
cento do valor da causa.
- O único problema que eu
sou a causa, tio Breno.
- Acertamos depois. Qual a
acusação?
- Diabo, pode começar.
- É bem como dizem que
passaríamos por um julgamento.
- Silêncio!
- O réu tem contra si a
acusação de mentir para um grande público. Era um contador de histórias
ficcionais. Escrevia história de tal maneira que muitos pensavam ser
verdade. Ludibriava as pessoas sem dó nem piedade, esse cronistinha.
- Vou considerar isso como
um elogio por parte do Diabo.
- É uma acusação grave, meu
filho!
- O meu cliente é inocente!
Ele não é mentiroso.
Dois dias depois. Conversa
com um velho amigo sobre o julgamento.
- Bom! Daí quando o meu tio
começou daquela maneira eu já o dispensei. Virei o meu próprio advogado.
Contei porque escrevia. Narrei uma história de amor, um romance de dar
inveja a Garcia Márquez, a Mário Vargas Llosa, entre outros. Falei do meu
amor perdido. O meu amor incondicional por Aristevânia. Que escrevia para
aliviar essa dor. Vi quando o Diabo encheu os olhos de lágrimas. Vai
passando o senhor Deus. Vou falar com ele. Depois eu termino a história,
amigo Juremir... Licença... Deus! Deus! Podemos conversar?
- Estou ouvindo, meu filho!
- Posso lhe fazer uma
pergunta?
- Claro!
- Por que durante o meu
julgamento o senhor só balançava a cabeça negativamente?
- Meu filho! Eu conheço a
sua história inteira, do nascimento até hoje. E sei que nenhuma Aristevânia
passou por sua vida.
- Por que então me deixaste
entrar aqui no céu?
- Quem produz cultura ou a
apreciação sempre será salvo, meu filho! Sem cultura, o homem nunca se
conhecerá por completo...
- Ah tá... Obrigado!
- Certo que às vezes acabo
engolindo algumas coisas como sendo cultura...
- Como é que é, senhor?
- Nada não! Pensei alto.
Aliás, foi bom você ter me parado. Queria falar contigo mesmo. Está vendo
aquela de branco perto das rosas?
- Sim! O que tem ela?
- A história que você contou
no seu julgamento também me comoveu. Ela é Aristevânia. E vocês casam
amanhã...
- Deus! O senhor sabe que
aquela história era ficcional, uma invenção. Uma mentira!
- Por isso mesmo, meu filho!
- Não!
Aqui é o “Anjo-escrivão”.
Ele desmaiou! Acho que não gostou da Aristevânia.
|