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Quando a esposa lhe avisou
que iria a um passeio com outras mães da comunidade, e questionou se ele
poderia deixá-la às 15h, na sede cultural para pegar o ônibus, o Bigode,
tranqüilo, como era de sua personalidade, acenou afirmativamente com a
cabeça e, decidido, respondeu - Tá! Vou aproveitar então, já que é no
caminho, para assistir ao jogo do meu time no Bar do Teco, e depois vou
olhar a “pelada” do pessoal do trabalho lá no Clube Esportivo.
O Bigode era um cara
família. Aliás, os amigos viviam dizendo que ele tinha cara de “paizão”.
Efetivamente, tinha dois filhos. Chamava-se, batizadamente, de Jorge
Augusto, mas ninguém o conhecia pelo nome. O apelido viera do tempo de
adolescente, assim como, o discreto bigode que dera a sua origem. Era casado
com a Magda há vinte e três anos. Sua rotina resumia-se ao trabalho, a
família e a suas duas paixões, o futebol e o seu carro. Se é que podemos
chamar aquele Corcel II, ano 81, de carro. Era uma lata velha que, segundo o
Bigode, seria reformado quando ele se aposentasse. O Corcel, de cor branca e
ferrugem, fora carinhosamente cognominado de “Zorro”.
No horário desejado pela
esposa, o Bigode, pontual como sempre, apesar do estado do “Zorro”, a largou
em frente à sede cultural, e rumou para o Bar do Teco. Como já estava
virando rotina, assistiu novamente o seu time decepcionar. Dessa vez, perdeu
a partida por 3 a 2. Saiu do Bar do Teco, ingressou no Corcel, e pensou
“duas vezes” se iria mesmo ou não ao Clube olhar a “pelada” do pessoal do
trabalho. Sabia que lá, os amigos torcedores do time rival o gozariam o
tempo inteiro. Como semelhante situação não seria a primeira, e nem a última
vez que ocorreria, resolveu ir.
Assistiu a “pelada”, comeu
um churrasco, tomou algumas cervejas e quando o relógio marcou 22h30, ele
decidiu ir embora, apesar da insistência do pessoal para que ficasse um
pouco mais.
Voltava para casa
tranqüilamente no Corcel, pois o Clube Esportivo não ficava muito longe da
sua casa, quando o “Zorro” deu duas “engasgadas”, soltou uma fumaça preta
pelo cano de descarga e apagou. Por sorte, bigode ainda conseguiu
estacioná-lo em um lugar “seguro”. Antes de descer do carro, ainda tentou
por duas vezes ligá-lo novamente, mas sem sucesso. Saindo do Corcel, foi
quando realmente percebeu onde estava estacionado. Parara em frente a um
Centro Noturno de Lazer Masculino, ou melhor, um Cabaré mesmo. Era um Cabaré
desses de beira de estrada, com lâmpadas laranjas e azuis em sua frente,
“anunciando” o Centro Noturno. Bigode olhou para o estabelecimento e um
homem alto e forte lhe espiava na porta. Clamou um - Meu Deus! E foi abrir o
enferrujado capô do Corcel.
Dentre os seus conhecimentos
de mecânica de automóveis, averiguou todos os itens que poderiam ser a causa
daquele “apagão”. Não encontrou o defeito. Resolveu então, ligar, e por
sorte havia levado o telefone celular, pedindo socorro para o pessoal do
trabalho que ainda permanecia no clube. Quando falou que estava em frente ao
Cabaré Prazer Total, ouviu-se “ao fundo” da ligação, uma efusiva vibração.
Enquanto aguardava a chegada
dos “socorristas”, algumas “profissionais” do Cabaré saíram para rua e
começaram a conversar com o Bigode. A turma do pessoal do trabalho não
demorou a chegar. Vieram em três carros, todos com cinco ocupantes. Com
isso, a “muvuca” enfrente ao Cabaré estava montada.
Resolveram, após algumas
análises, empurrar o Corcel, para ver se ele pegava no “tranco”. Quando
começaram a empurrar o “Zorro”, eis que passa o ônibus com a esposa do
Bigode, voltando do tal passeio com as outras mães da comunidade.
Foi aquela gritaria dentro
do ônibus. O motorista não teve escolha: parou. Todas as mulheres, lideradas
pela esposa do Bigode, desceram. Foi aquela confusão!
Ele não teve tempo de se
defender. Quando iniciou a fala - Amor, eu posso explicar... O Bigode tomou
uma “bolsada” no ombro, e os xingamentos começaram. Ser chamado de
“cachorro” foi o mais leve que ouviu. Escutou tudo quieto. Tentou argumentar
duas ou três vezes, mas a esposa não deixou. E assistido pelo pessoal da
“pelada”, as mulheres da comunidade e pelas “profissionais”, ouviu a esposa,
enfaticamente, pedir - Quero o divórcio! Virar as costas e caminhar em
direção ao ônibus.
O Morcego, velho amigo do
Bigode, tentando ajudar, “saltou”, e parando-a, assumiu a culpa, dizendo que
a idéia por eles estarem naquele local fora dele. Que o Bigode não tinha
nada a ver com isso, que ele nem queria ir, fora por insistência. Foi pior.
Assim, apenas confirmou que a ida do Bigode ao Cabaré era opção.
O corpo inteiro do Bigode
tremia. Nervoso, não acreditava no que estava acontecendo. Os amigos
tentavam consolá-lo. Terminado o “show”, a esposa e as outras mulheres da
comunidade embarcaram novamente no ônibus. Foi quando que, sendo solidária,
uma das “profissionais” trouxe um copo de água com açúcar para o Bigode, no
intuito de acalmá-lo. Passou-lhe a mão no rosto e lhe entregou o copo. A
esposa do Bigode, vendo a cena, e com o ônibus já começando a entrar em
movimento, enciumada, gritou - Não acredito. Pára! E esquecendo-se das cenas
anteriores, proferiu - O que aquela vagabunda está pensando. Do Bigode só eu
cuido!
O ônibus parou e a confusão
recomeçou.
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