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Esse fato atravessou os anos e os mares. Não fosse um
papagaio de “língua solta” relatar-me, nunca essa narrativa, que é contada
de geração em geração entre os animais, viria à tona. A história da Arca de
Noé é bem conhecida, não precisamos aqui detalhar, mas um fato que ocorreu
no interior da arca, só os animais sabiam. Mais precisamente: uma partida de
futebol!
Era um dia de navegação tranqüila, depois do dilúvio. Os
animais já estavam entediados do balanço do mar. Foi quando o macaco teve
uma idéia: jogarem uma partida de futebol. Todos foram favoráveis, exceto o
Noé, que acordara ranzinza naquele dia, proferindo:
- Nada de futebol no barco. Vai estragar a pintura!
Apesar da negativa do “chefe”, os animais não desistiram da
idéia. Para solucionar o problema partiram para o mundo do crime:
“seqüestraram” o Noé. O urso agarrou-o e os pingüins amarraram-lhe no convés
da arca. Pronto! Problema resolvido. Porém, outro surgiu: como fariam as
goleiras? Logo, os elefantes ofereceram-se e com as patas frontais e
traseiras alinhadas, formavam um belo gol embaixo das suas barrigas.
Perfeito! O canguru fora designado o árbitro por saber assoviar. Convidou o
camaleão para representar os cartões, que sem pestanejar saltou para dentro
da sua “bolsa”.
A bola: testaram o ouriço, espinhava muito. A tartaruga,
pesada demais. Então, pegaram uma meia do Noé, e, em meio a uma gritaria,
depenaram o peru. Pronto. Mesmo não ficando muito redonda, a bola estava
confeccionada. Era o que dava para fazer se queriam jogar futebol.
No time do leão ficaram onze animais claros, e, no do
macaco, logicamente, onze escuros. Os pássaros juntaram-se na torcida.
Cantavam uma bela melodia de incentivo. Tudo pronto! Então o papagaio, que
seria o narrador da partida, acompanhado do comentarista tucano, sugeriu que
cada animal deveria escolher um número e pintá-lo nas costas, para enobrecer
a sua narração.
- O que acham? Indagou.
- Boa idéia! Exclamou o tamanduá. E foi aquela gritaria:
- Dois! Dez! Nove, time claro! Um, escuro! E assim, todos
os números foram sendo preenchidos
Tudo pronto. Bola no centro. O canguru iria iniciar a
partida, quando o hipopótamo, atrasado e esbaforido, chega e fanhosamente,
questiona:
- E eu?
- Tu o que, gordo? Replica o centroavante girafa.
- Jogo em que time? Qual o meu número?
Silêncio. Ninguém responde. O hipopótamo segue fazendo uma
espécie de aquecimento, dando uns pulinhos, porém, estranhamente, mantém as
mãos para trás.
- E aí, para que lado eu entro, gente? Repetiu faceiramente
a indagação.
Então, o urso toma coragem e responde:
- Não tem lugar para ti neste jogo... Aliás, por que queres
jogar? Tu és muito ruim de bola!
A resposta alvoroçou a bicharada. Gritos de apoio ecoaram:
– É isso aí! – Saí daqui perna-de-pau! – Fora! – Não atrapalha, gordo!
Estático ao lado do campo, depois da gritaria, o cabisbaixo
hipopótamo virou-se para se retirar do recinto, porém, antes de sair,
tirando as mãos das costas, sentenciou:
- Tudo bem, eu não jogo! Mas também não empresto a bola que
encontrei no convés...
Falou erguendo a redonda, que era novíssima, em uma das
mãos. O espanto e o silêncio tomam a arca. A ansiedade e a precipitação
tinham estragado a oportunidade de melhorar o espetáculo. Todos se olhavam
como se perguntassem – E agora? O desiludido hipopótamo, depois de mostrar a
bola e colocá-la embaixo do braço, começa a sair. Foi quando apareceu o
Senhor Coruja, ordenando:
- Chega pessoal! Vou contar a surpresa agora... E dirigindo
a palavra ao hipopótamo, pediu:
- Espere, rapaz! Temos uma surpresa pra ti...
Clima de tensão e curiosidade no ar. - Que surpresa seria?
Cada um se questionava. O Senhor Coruja, no auge da sua rapidez de
raciocínio e sabedoria, havia de ter a solução para resolver aquele impasse.
O hipopótamo parou de caminhar com o pedido da velha ave, e, curioso,
questionou:
- Surpresa pra mim?
Compreendendo que já havia dominado a situação, o Senhor
Coruja voa e senta-se no ombro do hipopótamo, e, começa a explicar a
situação:
- Sim! Uma surpresa para ti, meu rapaz! Isso que aconteceu
agora, não passou de uma encenação da bicharada da arca. Estava tudo
combinado...
- Sério? Por que isso, então? Interrompeu desconfiado, o
hipopótamo.
- Tudo não passou de uma brincadeira! Encenação dos meninos
para sacaneá-lo. A verdade é que queremos mesmo é homenageá-lo... Como tu és
um grande amigo de todos, nós nos sentimos na obrigação de retribuir essa
amizade. Não é verdade, pessoal? Indagou o Senhor Coruja a bicharada:
-Ééééééééééééééééééééééééééééééééé´! Ecoou como resposta
sonoramente. Então, prosseguiu:
- Portanto, essa partida de futebol seria em sua homenagem.
Criamos até um nome para taça que o vencedor do jogo ganhará no final: Taça
Hipopótamo dos mares! O que achas?
Ainda, desconfiado, o hipopótamo pede confirmação:
- Sério?
- Claro, meu rapaz! Ratificou o Senhor Coruja. Ainda,
ordenou para os esquilos:
- Tragam a cadeira do homenageado!
E tomado pela vaidade, o hipopótamo refletiu um pouco,
jogou a bola para cima, e gritou:
- Que vença o melhor!
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