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Ruy Jobim Neto

Cartunista

Autor gaúcho mostra relação entre freiras em peça teatral

Fotos: Divulgação

 

"A Bahia de Todos os Santos surpreende, você sabe muito bem disso". Essa é uma das premissas de Irmã Mariana (Débora Aoni) para a Irmã Cecília (Carolina Mesquita), as personagens da peça teatral "Do Claustro", do gaúcho Ruy Jobim Neto, a produção da Cia. Mestremundo de Histórias que estréia dia 17 de janeiro, quinta-feira, no Espaço dos Satyros 1, em São Paulo, às 22h30, sob direção de Eduardo Sofiati.

 

A trama da peça se passa em Salvador, em fins do século XVII, numa cela do primeiro monastério feminino do Brasil, já no período decadente do ciclo da cana-de-açúcar. Mariana precisa convencer Cecília a cometer um ato ousado para salvar a vida de um homem, um poeta-advogado por quem ela está apaixonada. Ele está preso e ameaçado de degredo para a África. Mariana está enclausurada e detém uma fortuna sob a forma de dote. A história que é relatada, em segredo de confissão, contém doses picantes de sexo e violência. Cecília, nesse meio tempo, acaba se atraindo por Mariana de modo avassalador.

 

Os livros da historiadora Mary Del Priore foram pontos de partida substanciais para as pesquisas em torno do universo da mulher brasileira no período colonial, o que fez com que "Do Claustro" apresentasse um forte jogo de poder e sedução entre as duas freiras clarissas (da Ordem de Santa Clara), do Convento do Desterro da Bahia. A ordem à qual pertencem as clarissas da peça - as urbanitas - não existe mais desde o início do século XX, quando morreram suas três últimas religiosas. Mesmo nos poemas de Gregório de Matos, as clarissas do Desterro são citadas, muitas vezes em detalhes.

 

A idéia de desenvolver uma relação de amor, poder, ódio e sedução entre elas veio desde a sinopse da peça, escrita após a viagem do autor a Salvador, onde entrou em contato com historiadores e centros de pesquisa como o IPAC (Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural), a Fundação Pedro Calmon, a Fundação Gregório de Matos, o Museu de Arte Sacra da Bahia e o Museu do Convento de São Francisco, além do próprio Convento do Desterro, hoje um colégio franciscano, no bairro de Nazaré.

 

 

Para se certificar de que estava pisando em terrenos do século XVII, foi necessária a consultoria da historiadora baiana Laís Viena de Souza (foto), que foi, na realidade, a primeira pessoa a ler o texto integral de "Do Claustro", antes mesmo do elenco. Laís pesquisa, para sua dissertação de mestrado, sobre o Seminário de Belém da Cachoeira, onde estudaram, entre outros, o Frei Galvão e o Padre Bartolomeu de Gusmão.

 

As atrizes Débora Aoni e Carolina Mesquita - para quem a peça foi especialmente escrita - foram os dois pilares deste projeto, segundo o autor, que também produz o espetáculo. Foram meses de trabalho, desde fins de março de 2007, quando foi proposto a elas esta história de paixões impossíveis, violência, medos e preconceitos. Com as atrizes, foram refeitas diversas versões do texto. A da montagem é praticamente a sexta destas versões.

 

O encontro do diretor Eduardo Sofiati foi também um acerto. Tendo como preparadora de elenco a própria esposa - também dramaturga e diretora teatral - Fernanda Levy, os dois estabeleceram todo um método de trabalho para os ensaios de "Do Claustro". Como elogia a atriz Débora Aoni, a possibilidade de trabalho de criação e improviso que Sofiati traz à encenação é um dos patrimônios da peça. O diretor também é só elogios para suas atrizes - Carolina e Débora são inteligentes, talentosas, ouvem muito e são extremamente criativas.  

 

A trilha sonora de "Do Claustro" tem uma história particular. Ela foi composta pelo maestro romeno Gerson Grünblatt antes mesmo que o texto da peça fosse escrito. Numa conversa com Grünblatt e a atriz Carolina Mesquita, quando Ruy apresentou o título pela primeira vez e falou sobre o que seria a montagem, o maestro começou rapidamente a tecer idéias na cabeça, e foi na viagem entre São Paulo e Juiz de Fora, no ônibus, que a música lhe ocorreu.

 

 

Outros profissionais que se juntaram à montagem foram igualmente cruciais para que a peça ganhasse vida. A designer do figurino, Ray Lopes, do departamento cenotécnico da EAD, na USP, que, a partir das pesquisas do autor e das interferências das atrizes do elenco, dedicou-se a dar vida ao hábito e à camisola que elas vestem em cena.

 

O cenotécnico Nilton Ruiz foi quem montou o catre que Irmã Mariana usa, em sua cela. Toda a programação visual do espetáculo ficou a cargo do autor da peça e da atriz Débora Aoni, cuja meticulosidade foi essencial ao cartaz e derivados. A assessora de Imprensa e também atriz Amália Pereira foi quem proporcionou a "Do Claustro" a visibilidade necessária. E muito trabalho ainda há pela frente.

 

Como brinca o próprio autor e produtor da peça, o texto foi escrito por um gaúcho, as atrizes são paulistanas, o diretor é catarinense e a história se passa em Salvador, na Bahia.

 

"Do Claustro” deve participar, ainda em janeiro, de um evento em São Paulo, a confirmar, e em março deverá se apresentar no Fringe 2008, a mostra nacional paralela ao Festival de Teatro de Curitiba. Durante todo o mês de abril, aos finais de semana, a peça será apresentada na sede da Cia. de Teatro Contemporâneo, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

 

Serviço:

 

Do Claustro

Com: Débora Aoni e Carolina Mesquita

Texto: Ruy Jobim Neto

Direção: Eduardo Sofiati

Onde: Espaço dos Satyros 1 - Praça Roosevelt, 214, tel. (11) 3258-6345

Quando: a partir do dia 17, às quintas-feiras, às 22h30

Quanto: R$ 20,00 (meia-entrada R$ 10,00).

Estacionamento a R$ 5,00

 

 E-MAIL DO COLUNISTA: jobimneto.ruy@gmail.com

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