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Fotos: Divulgação

A primeira vez em que me
deparei com um longa dirigido por Sidney Pollack me parece ter sido
exatamente "O Cavaleiro Elétrico" (The Electric Horseman), daí o título da
matéria. Além disso, não farei aqui aquele tipo de texto que começa como um
verbete do Wikipedia, afinal ele está lá exatamente para isso. Para ser
consultado. Façamos diferente, e permitam aqui uma homenagem a este grande
cineasta que perdemos nesta semana.

No filme em questão, o do
Cavaleiro, Robert Redford - alter ego do cineasta e do perfeito herói
americano em tantos filmes de Pollack -, interpreta um cowboy decadente e
desacreditado que, em Las Vegas, rouba um cavalo de show de rodeio para
libertá-lo no deserto de Nevada. Atrás dele vai uma repórter, interpretada
por Jane Fonda. A música do filme, sempre pelo mestre Dave Grusin, é
embalada por canções na voz de Willie Nelson, que também está na
película. Claro, o cavalo é solto, é um libelo à liberdade de expressão,
algo tão caro aos americanos, e Redford e Fonda se apaixonam. Pollack nos
constrói uma bela fábula e nos coloca para pensar. Coisa que ele adorava.

Lembro que, após me
apaixonar instantaneamente pelo filme, comecei a perseguir outros títulos
dirigidos por Pollack e, por extensão, musicados pelo genial Grusin. Comecei
a entrar nessa caverna, ver no que dava. E gostei muito. A próxima parada
era "Jeremiah Johnson" (Mais Forte que a Vingança). Acabei de ver no Google
que se trata de um filme de 1972, anterior portanto ao Cavaleiro. Novamente
Redford, desta vez vivendo quase como um eremita nas montanhas rochosas
americanas, outro libelo maravilhosamente filmado. Os filmes são muito bons,
de qualidade, na maioria dramas.

Mas foi em 1982 que Pollack
me surpreendeu. Acho que a essa altura do campeonato eu já havia assistido
(sempre na TV, de madrugada) a filmes dele como "Três Dias do Condor" –
novamente com trilha composta por Dave Grusin. É um filme de suspense com um
super elenco contracenando com Redford. Temos Faye Dunaway,. John Houseman e
Max Von Sydow. Lembro que na mesma época vi "Ausência de Malícia", com Sally
Field e Paul Newman. Outra parada obrigatória foi "Nosso Amor de Ontem" (The
Way We Were), com Barbra Streisand cantando o lindo e famosíssimo tema
principal e, claro, a presença de Robert Redford como seu par e
protagonista. Pollack já era um diretor pra lá de consagrado quando me
surpreendeu em 1982. Em "Tootsie". E desta vez no cinema.

Agora o mocinho é Michael
Dorsey, ou Dorothy Michaels, como quiser. É um ator desempregado
interpretado por ninguém menos que Dustin Hoffman. Jessica Lange, linda e
maravilhosamente luminosa, faz Julie, a atriz intérprete de uma lasciva
enfermeira numa novelinha (a chamada soap-opera) de televisão. E por que
Pollack me surpreendeu? Por que ele aparece como ator, contracenando com
Hoffman? Por que Jessica levou o Oscar pela categoria de Melhor Coadjuvante
quando competiu duplamente e perdeu o de melhor intérprete por "Frances"?
Não. Resposta errada. Pollack me deixou de quatro porque o filme era uma
absoluta comédia, limpa, doce, terna, completa, redonda até o talo. "Tootsie"
é maravilhosa. Apaixonante.
A música de Grusin estava
lá, claro, e ainda mais quando a letra de "It Might Be You" estava nas mãos
competentes do casal Alan e Marilyn Bergman e a voz era a de Stephen Bishop.
Você canta junto ao sair do cinema, torce por Michael, para que ele fique
com Julie, de alguma forma, e se diverte com ele pedindo emprestado um
vestido dela, nos créditos finais. Pollack me ganhou ali. Isso posto, vamos
a outros filmes dele.
E aí ele nos vem com "Out of
África" (Entre Dois Amores). Ganha uma pilha de Oscar (sete ao total, todos
os principais) naquele ano de 1985. Também pudera, ele coloca o seu astro de
sempre, Robert Redford no coração do continente africano para disputar Meryl
Streep (interpretando Karen Blixen, cujo pseudônimo literário era Isak
Dinensen, a escritora dinamarquesa) com Klaus Maria Brandauer, o ator alemão
de "Mephisto". Belíssimo, gigantesco, mais livre que nunca. A câmera
premiada de David Watkin perambulou de avião sobre manadas de elefantes,
zebras e girafas ao som de John Barry. Foi a outra surpresa. O britânico
John Barry, pra mim, sempre foi o autor da maioria das trilhas de James Bond,
e autor da premiada "Born Free", de "A História de Elza". No frigir dos
ovos, foram 28 prêmios para o longa de Pollack.
Aí o cinéfilo vai atrás de
outras coisas do cineasta. Uma das paradas foi o segundo longa dele, lá nos
idos de 1966, um texto de Tennessee Williams, "This Property is Condemned"
(algo como "Esta Propriedade está Condenada"). Nele, vemos Natalie Wood
linda, novinha, no auge da beleza e do talento. Lá também está Robert
Redford, para variar, e um Charles Bronson bem jovem ainda, que nunca ia
imaginar sendo policial no fim da carreira naquela longa seqüência odiosa do
"Desejo de Matar" (alguém aí lembra ou sabe em que número parou essa
série?).
Em seguida, "Havana", claro,
ele estava em casa. A música era de Dave Grusin com pitadas de Arturo
Sandoval, e o astro em questão era o velho e bom Robert Redford. A estrela
da vez tinha acabado de sair da produção de "A Insustentável Leveza do Ser",
a bela sueca Lena Olin. O ano era 1990, e após cinco anos sem filmar,
Pollack se debruçaria sobre Cuba antes da Revolução de Fidel e Che. Uma
Havana corrupta, esquálida pelo domínio americano, porém viva, alegre,
pulsante. Lembre-se que Pollack quer fazer a gente pensar. Confesso que
depois de "Tootsie" tinha ficado difícil gostar de "Havana", mas tudo bem.
A próxima parada seriam dois
filmes estranhos, um derivado de um romance de John Grisham (que além de
escritor é, na verdade, advogado). O que eu gostei mesmo foi a presença
luminosa de Holly Hunter – que tinha acabado de chegar de sua indicação a
melhor atriz no Oscar por "Nos Bastidores da Notícia". O astro do filme,
porém, estava bombando na época. E sempre bombou – era Tom Cruise. Jeanne
Tripplehorn fazia a esposa de Cruise. O outro foi o fiasco, na minha
opinião. O filme que Pollack não precisava ter feito, porque o original é
imbatível. Ele se meteu a refilmar "Sabrina", que já existia sob a mão
mágica de Billy Wilder. Refilmar pra quê? Colocar Julia Ormond pra fazer
esquecer ninguém menos que Audrey Hepburn? Harrison Ford no lugar de
Humphrey Bogart e finalmente Greg Kinnear pra fazer o papel que foi de
William Holden? Não, por favor, foi demais para mim. Pulei fora.
Felizmente, o cineasta se
redimiu em seus dois próximos filmes, na visão deste que escreve estas
humildes letras que o homenageiam. "Random Hearts" é uma jóia, também com
Ford, desta vez no papel do policial Dutch, que se vê às voltas com a morte
acidental da esposa num vôo, e fica sabendo que o marido de uma
congressista, feita pela beleza britânica de Kristin Scott-Thomas (do meu
querido "O Paciente Inglês"), ambos foram vítimas de dois adúlteros. E,
óbvio, se apaixonam. Música de Grusin, pra variar, com pitadas de Arturo
Sandoval. Uma beleza. E ainda contando com o próprio diretor em frente às
câmeras, fazendo um assessor de Kristin. Que sorte.
Mas foi Nicole Kidman, em
sua beleza glacial que, dentro da ONU, consegue desvendar uma trama absurda.
Pollack volta a contracenar com sua protagonista. O filme é "A Intérprete".
A trama de um assassinato que está para acontecer dentro do Congresso das
Nações Unidas traz no elenco Catherine Keener e o agora diretor Sean Penn.
Denso, misterioso, bem rodado, é um Pollack legítimo, à altura de um "Três
Dias do Condor", no melhor estilo.
Sofisticado, inteligente, o
diretor também esteve diante das câmeras em muitas outras vezes, como quando
contracenou com Kidman e Cruise no último longa de Kubrick, "De Olhos Bem
Fechados". Fez muita TV, dirigiu, escreveu, atuou, produziu filmes
importantes (um dos que me vem à cabeça agora, é "Cold Mountain", novamente
com Nicole Kidman no elenco). Um cineasta, um artista e artesão completo.
Preferi ficar com os grandes filmes dele, comentar o que eu lembrava e o que
mais me chama a atenção neles, fazer assim essa homenagem a Sidney Pollack.
Ah, sim, ele faleceu de câncer aos 73 anos. E quem quiser mais que procure o
IMDB ou o Wikipedia, claro.
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