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Foto: Divulgação

O Brasil
vive uma transição nutricional paradoxal. Um estudo publicado na revista
Cadernos de Saúde Pública revela a prevalência crescente tanto de anemias
como de obesidade no país. A pesquisa, que analisou trabalhos realizados
nas últimas três décadas, aponta que essa tendência estaria associada a
mudanças no consumo alimentar.
A
pesquisa analisou 28 trabalhos publicados sobre anemia em crianças e
mulheres em idade reprodutiva, considerando a representatividade
estatística, padronização de técnicas laboratoriais e critérios
recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Para o estudo do
sobrepeso e obesidade, o trabalho avaliou o Índice de Massa Corporal (IMC).
Participaram do trabalho pesquisadores do Departamento de Nutrição da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Instituto Materno Infantil
Professor Fernando Figueira (Imip) e do Centro de Pesquisas Aggeu
Magalhães, unidade da Fundação Oswaldo Cruz em Recife. De acordo com
Malaquias Batista Filho, do Imip, o estudo procurou se afastar do
paradigma usado na maior parte das pesquisas, cuja referência é o enfoque
isolado dos diagnósticos, particularmente no caso das doenças
nutricionais, que são analisadas como “entidades próprias e autônomas”.
“A idéia
foi juntar os dados em uma série cronológica desde 1974 para verificar se
eles apontavam alguma tendência. Há três estudos que foram feitos com a
mesma população em momentos diferentes, por isso são mais adequados a
análise de tendências temporais. Os resultados revelam que, a cada década
em que o exame foi feito, a desnutrição regrediu e a obesidade evoluiu”,
disse Batista Filho.
Embora o
país venha superando o problema da fome, a nova pesquisa aponta as anemias
como um problema em ascensão. Um dos estudos anteriores feito no município
de São Paulo, cujos dados foram utilizados, foi o caso mais
representativo: a prevalência do problema das anemias aumentou de 22% para
46,9% nas duas últimas décadas, entre as crianças menores de 5 anos.
Os outros
dois trabalhos se referem aos estados da Paraíba e de Pernambuco, cuja
tendência é de aumento das anemias em 10% a cada dez anos. Batista Filho,
que também é professor aposentado do Departamento de Nutrição da UFPE,
ressalta que o problema da anemia não é exclusivo dos países
subdesenvolvidos. A Europa tinha, segundo ressaltou, 20 milhões de pessoas
anêmicas há uma década.
“Trata-se
de um problema que foi progredindo na surdina, sem muitas denúncias. Hoje
existem estimativas de que dois terços da população mundial podem ter
anemia. Houve redução nas formas mais graves, mas houve ampliação em
relação às formas leves e moderadas de anemia”, acrescentou.
Leite demais
Segundo
Batista Filho, uma certa mitificação do leite na alimentação humana tem
relação com o avanço da anemia. “O leite é muito importante na
alimentação, mas ainda assim não pode ser considerado um alimento que
necessariamente deve fazer parte da dieta para que exista condição para
saúde normal. Ele não é rico em ferro e inibe o aproveitamento de ferro de
outros alimentos. No estudo feito em São Paulo, verifica-se que, em grande
parte, o leite está sendo co-responsável pela ocorrência de anemia em
crianças”, disse.
As
grandes mudanças na situação nutricional da população adulta resultaram,
segundo a nova pesquisa, em um aumento do sobrepeso e obesidade. Em
relação à evolução do estado nutricional, segundo o IMC, foi identificado
um declínio no baixo peso e uma estabilização em níveis aceitáveis a
partir de 1989, enquanto a obesidade triplicou em homens, elevando-se de
2,8% para 8,8%.
Entre as
mulheres, a ocorrência de obesidade, que, inicialmente, era três vezes
maior do que em homens, manteve-se praticamente estável em torno de 13%
nas avaliações efetuadas em 1989 e 2003. No mesmo período, a prevalência
de normalidade antropométrica, que era de 71,4% entre os homens em 1974,
caiu para 47,4% na última avaliação. Entre as mulheres, a prevalência da
normalidade antropométrica, segundo o IMC, declinou de 53,4% para 42,7%.
De acordo
com Batista Filho, o novo paradigma nutricional gera a necessidade de se
avançar para além dos problemas relacionados à fome. “Agora temos que
pensar nos aspectos qualitativos da alimentação e não simplesmente
compensá-la com calorias. Alimentação saudável não se reduz ao problema da
fome, mas tem relação com vários outros aspectos nutricionais e de saúde.”
“Temos de
retirar um pouco do centro da discussão a questão da fome em si, e colocar
agora um tema bem mais amplo, que seria o da alimentação saudável para
todos os ciclos de vida. Hoje, inclusive, se percebe que quando estamos
cuidando da alimentação da criança estamos cuidando do escolar, da
gestante, do trabalhador e das populações idosas do futuro”, reforçou. (AF)
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