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Por Guido Kuhn
Olhando para trás, não temos o poder de mudar o passado, mas
certamente podemos saboreá-lo. Muito especial é o lugar donde saímos, onde
todos os rostos são conhecidos, as pessoas olham para a gente, abrem
corações despojados, nos chamam pelo nome e apertam bem os abraços, sem
nenhum pudor. Existe um lugar melhor do que este? Voltar ao berço é como
voltar de longa e cansativa viagem, largar as malas, livrar-se dos sapatos,
das amarras e convenções de moda e etiqueta, ficar à vontade. Dilsa tinha 14
anos quando leu uma poesia para o primeiro padre da localidade, um piedoso
frei franciscano que era seu parente e ali rezou a primeira missa. Num lugar
desses, de alguma forma, quase todos são parentes entre si, o que resulta
numa grande família.
Agora, 40 anos depois, o frei virou bispo e ambos voltaram
para o reencontro, na mesma terra comum a nós, que já era formosa e agora
virou também famosa, porque ali nasceu um bispo. A menina de 14 anos, agora
já uma senhora madura, bonita e jovial, me abraçou sorrindo e disse que ela
e sua família estão no cenário das minhas crônicas, e que recentemente uma
das suas irmãs até chorou com a história das pescarias de muçum na sanga do
potreiro. Quando nasceu, no tempo em que se nascia em casa, foi seu pai quem
fez o parto. A parteira chegou tarde, porque foi tudo muito rápido. Depois,
o papai orgulhoso foi levar a boa nova aos vizinhos. Cruzou a pinguela e
bateu também na nossa casa, que ficava pertinho. De memória, ainda vejo o
largo sorriso e ouço a voz aguda e penetrante daquele homem feliz. Dilsa era
a sexta criança, depois a conta ainda iria até dez.
Ao fotografar-me com o novo bispo, para o meu álbum pessoal,
lembrei de quando tinha uns dois anos, se tanto, e deveria tirar o meu
primeiro retrato. Criança xucra, acho que me assustei com aquele tripé
armado no terreiro de casa e o pano preto com que o retratista cobriu a
cabeça para disparar o passarinho. Aquilo era um cerimonial, o passarinho
não saía e eu embestei, com a minha precoce e congênita teimosia germânica.
Nem mamãe, que me chamava de “mein Herzchen”, conseguia me domar. Até que
teve o estalo de pegar a chupeta, mergulhar no açucareiro e meter na minha
boca. A foto saiu antes que o açúcar acabasse, e eu nem percebi. Está no meu
álbum, e um dia será capa de livro, com o justo crédito para o grande
fotógrafo Harry Werner. Grande e heróico, capaz de subir aquele perau para
chegar lá onde morávamos, bem perto da toca do leão-baio.
Aquele fotógrafo não era apenas retratista. Tinha estudado
dois anos no Kappesberg, onde ficava o seminário dos padres jesuítas. Seu
pai, alfaiate, fez a fatiota para a minha primeira comunhão. E seus dois
filhos foram os soldadinhos fardados de branco, inventados pelo vigário para
contracenar com as meninas, que eram os anjinhos. Ele era o dono da venda,
cortava o cabelo dos colonos e ao redor dele aconteceram coisas que mudaram
a história da Região e do Sul do Brasil. Ali os agricultores embarcavam sua
produção de fumo, suínos e soja, essa leguminosa que na época prometia e era
introduzida em Santa Cruz. E ali, pelas mãos dele, brotava o embrião da
Afubra, da qual foi o primeiro presidente. E seu filho, o soldadinho Benício,
é o presidente atual.
Na marcha inexorável da história, a venda fechou. Do lado de
cima da estrada, permanece o prédio de material onde os colonos
descarregavam os suínos para pesagem e venda. Passando pela frente, vi
alguém saindo da porta, um rosto negro e conhecido. Parei, abri o vidro e
perguntei se era o Pedro: “Bist du der Peter?” Era o próprio. Entendia a
língua dos colonos, mas tinha vergonha de falar. Desliguei o carro e fui ao
seu encontro. Não me reconheceu e falei que era filho do seu “Brune”, como
eles chamavam meu pai, que fora o patrão dele, dos seus irmãos e da mãe
Cristina, que até já deu uma crônica aqui. “Ah, o Quido!” – exclamou
surpreso, com a pronúncia trocada, igual à dos colonos. Pedi licença,
estendi o braço com a câmara e disparei algumas fotos de nós dois. Mostrei,
ele riu e achou que seu cabelo estava bem branco. Pudera, com 84 anos e toda
a história que leva nas costas... Será que ele não se olha no espelho para
ver o cabelo? Talvez nem tenha espelho. E precisa?
Esse Pedro é um crioulo especial, como outros que existem por
aí. Conheceu o bispo Irineu desde menino. “Guri dereito e sabido, vai sê
pade”. Ficou bispo. Quando foi peão do papai, Pedro morava lá no cerro,
pertinho do céu e da roça onde dava duro. Vi que tinha saudade, e eu também.
Sua família era unida, e hoje tem só mais um irmão vivo, o Nita, que não sei
se é nome ou apelido. Nunca ninguém o chamou de outro jeito. Lembrou do
finado Júlio, que era seu meio-pai e também já foi crônica aqui. Pedro se
aposentou, tem a bóia e os prazeres do trago garantidos. A vida nos separou,
mas nossas almas continuam próximas. Dele guardo uma foto de uns 30 anos,
numa quermesse, assando churrasco na vala, a
50 metros da casa onde mora
hoje. Acho que colou ali.
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