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Lenda gaúcha, segundo Paulo Werneck
"Negrinho
era escravo de um estancieiro ricaço e avarento". Assim começava a contar
invariavelmente a sua história um negro velho, que fora escravo nas terras
do sul. Ninguém sabia ao certo donde ele viera, nem o que fizera em sua
mocidade.
Negro Velho (assim o
chamavam as crianças, que tanto gostavam de ouvir a sua história) era exímio
cavaleiro, e o animal que ele amansasse podia ser montado até por moça da
cidade, de tão mansinho que ele ficava.
Isso no tempo em que
ele chegou aquele lugar sossegado do interior, vindo das bandas do sul,
quando ainda lhe restavam algumas forças. Negro Velho estava agora muito
cansado e não servia mais para nenhum serviço. Só sabia contar a sua
história:
“Negrinho
era escravo de um estancieiro ricaço e avarento...Cedo seus pais tinham sido
vendidos e levados para muito longe. Assim, ele cresceu só, sem o carinho de
ninguém neste mundo”.
Nego Velho enxugava
uma lágrima na manga da camisa, dava uma tragada no pito e continuava a
contar:
“E
sua vida era trabalhar todo o santo dia no pastoreio, e sofrer calado os
maus tratos do dono”.
Em sua narrativa,
Negro Velho usava sempre as mesmas palavras como se recitasse uma oração.
Essa não era uma história qualquer de fadas e de princesas, mas da vida de
um menino sem nome, que só tinha de seu, um dono, um senhor, e o dever de o
servir. Uma história dolorosa do tempo do cativeiro dos negros, felizmente
já abolido há tantos anos. Ela estava gravada em sua memória, como se
tivesse sido vivida...Como se fosse uma história real... E continuava:
“Um
dia fugiu um cavalo baio de estimação que estava a seu cuidado. O menino, em
vão, procurou o animal. Caiu a noite. Negrinho acendeu uma vela e continuou
a vagar. Valeu-lhe então sua madrinha, Nossa Senhora, os pingos de vela
formaram um rasto de luz. A luz cresceu, enchendo todo o campo, o que o
permitiu achar o cavalo perdido. Mas de manhã, quando ele voltava, o filho
do estancieiro, um menino muito mau, espantou o cavalo, que tornou a fugir
pelos campos sem fim“.
Havia naquele tempo,
senhores de escravos tão cruéis que davam mais valor a um cavalo de
estimação, que lhes servia para exibir a sua opulência, do que a vida de um
ser humano. Assim era o estancieiro, dono do Negrinho. E Negro Velho
contava:
Não se conformando
com o prejuízo, o senhor mandou que o pobrezinho fosse açoitado até morrer.
E seu corpo foi atirado à boca de um formigueiro. Voltando ali, ao clarear
do dia seguinte, o estancieiro viu, espantado, o Negrinho de pé à beira da
cova. O escravo, deu um pulo, montou no cavalo baio e desapareceu a
galope... Começou então a correr pelo povo a história do milagre. E, à
noite, quem andasse viajando pela campanha deserta, via, às vezes, surgindo
das sombras dos matos, passar o Negrinho a galope, montado no baio.
Até hoje, quando
alguém procura uma coisa perdida, é costume acender uma vela e dizer esta
oração: “Negrinho do Pastoreio, leva esta luz a Nossa Senhora, acha pra mim
o que perdi”. Nunca se ouviu dizer que o bom menino faltasse na ajuda aos
que recorrem a sua bondade, deixando de por o perdido a jeito de ser
encontrado pelo seu dono.
Todos os que o ouviam
acreditavam na história do Negro Velho e pediam ao Negrinho que os ajudasse
a achar o que perdiam, coisas esquecidas em algum canto, que acabavam sendo
encontradas. Assim a fama milagrosa do menino mártir aumentava...
Não se sabe se o
Negrinho morreu mesmo, ou se caiu exausto pelos maus tratos recebidos.
Reanimado pela brisa fresca da manhã, fugira espavorido ao ver o seu
carrasco. O cavalo baio teria ouvido, no mato onde se escondera, os gritos
de dor do amigo, que o tratava com carinho, e viera velar o sono da inocente
criança...
E o Negrinho do
Pastoreio continua a passar a galope pela lembrança do povo, dando coragem
aos que perderam, deixando pelo seu caminho um rasto de esperança. |