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A origem
dos nomes das maiorias dos bairros que formam a capital gaúcha se perde no
tempo. Em muitos casos já nem há vestígios dos elementos que serviram para
que recebessem a denominação pela qual são identificados até os dias de
hoje.
É assim
com o Passo da Areia, tradicional bairro localizado na zona norte de Porto
Alegre. A areia já se foi há muito tempo. Aquela área da cidade está toda
urbanizada. O passo, até resistiu, mas não faz muito tempo também deixou de
existir. Antigamente, quando índios ainda habitavam a região, era um
riachinho chamado por eles de Ibicuiretã, que significa " rio de areia ", "
água que corre sobre pó " ou ainda " passo da areia ". Brotava na baixada da
Boa Vista e seu leito sinuoso passava pelo meio do areal.
Com a
urbanização, o passo foi canalizado e virou um valão. Suas águas tornaram-se
sujas e barrentas e atravessavam o bairro espalhando mau cheiro. Com certo
alívio, os moradores locais viram o córrego ser aterrado no início dos anos
80, quando ali começou a construção de um shopping center.
Apesar
deste fim um tanto melancólico, a origem do Ibicuiretã está ligada a uma
linda história de amor.
Quando um
homem branco sequer tinha pisado naqueles areais, ali se instalara uma tribo
tapi-mirim, da nação dos tapes. Espremidos entre o Guaíba e morros, volta e
meia precisavam defender sua taba com paus, pedras, lanças, arco e flecha de
ataques de tribos inimigas. Os tapi-mirins viviam em permanente alerta. E
como não tinham cacique, eram comandados por um chefe guerreiro. Se esse
chefe adoecia, envelhecia ou morria, cabia ao conselho de anciãos escolher
um novo líder para as batalhas que viriam.
Depois de
eleito, o chefe, geralmente jovem e solteiro, começava a despertar a atenção
das índias solteiras. Aquele que até outro dia era apenas mais um entre os
seus, se convertia em um abençoado de Tupã, um escolhido dos deuses. E,
assim, suscitava uma disputa entre as donzelas da aldeia. Todas passavam a
usar seus enfeites mais bonitos, suas tintas mais coloridas, seus perfumes
mais cheirosos. Tudo para conquistar o coração do agora poderoso guerreiro.
Mas com
Obirici, uma linda jovem daquela tribo, os sentimentos não funcionavam deste
jeito. Desde curumim ela nutria amor por um único índio. Nunca havia
confessado sua paixão, no entanto. Amava em segredo, em silêncio, sozinha.
Quis o
destino que o índio por quem ela era apaixonada fosse escolhido o chefe
guerreiro dos tupi-mirins. Obirici pensou, então, que chegara o momento para
se declarar.
- Grande
chefe, estou aqui para dizer que te amo. Quero ser tua esposa, passar a vida
ao teu lado.
- Tu
não és a única a declarar amor por mim, Obirici.
- Outra
índia se apresentou como tua pretendente?
- Sim,
ela diz me amar como ninguém mais me amaria.
- Mas
eu te amo tanto quanto ela, mais até. E desde sempre. Desde que soube o que
era amar alguém ...
- Eu
acredito, Obirici, mas estou indeciso.
Diante do
tímido amor de sempre e da paixão repentina, o índio não soube o que fazer.
Foram dias tristes para Obirici. Passou noites em claro, chorando,
soluçando, odiando amar.
Como o
novo chefe não chegava a uma decisão, ele próprio pediu ao sábio conselho de
anciãos estabelecesse uma solução para o impasse. Assim foi feito: as duas
pretendentes disputariam um torneio de arco e flecha. A vencedora seria a
mulher do chefe guerreiro.
No dia do
desafio, toda a tribo reuniu-se para assistir o grande acontecimento. Nunca
a disputa para ser a esposa do chefe tinha chegado tão longe. Muitos
repararam que Obirici demonstrava estar muito nervosa, enquanto que a
concorrente parecia ganhar confiança com toda aquela gente como assistência.
Obirici
transbordava insegurança. Tremia seu arco, tremia sua flecha, tremia seu
braço, suas pernas, seu corpo todo. O mundo tremia em seu redor. Suas
flechas atingiam o alvo sem muita convicção, como se tivessem desistido do
vôo no meio do caminho.
A outra
índia parecia mais afetiva ao arco e à flecha. Seus disparos eram precisos,
fulminantes, certeiros. Cada flecha sua que acertava o alvo era como se
acertasse também o coração de Obirici. Aos poucos sua vitória foi se
tornando evidente.
Perdeu
Obirici. Perdeu a batalha, perdeu seu amado, perdeu a razão. Enclauzurada em
sua oca, só fazia chorar. Não comia, não bebia, não dormia, quase esquecia
até de respirar. No dia do casamento do homem que havia rejeitado seu amor,
não aguentou de sofrimento. Saiu da aldeia correndo, em prantos, para longe,
em direção a um ponto mais alto do areal.
Era noite
de lua cheia, e para lua Obirici chorou. Era noite estrelada, e para as
estrelas Obirici chorou, uma lágrima para cada ponto brilhante do céu.
Chorou tanto que sua face aos poucos foi se convertendo em lágrimas, seu
corpo todo se transformando, se desmanchando, sedesfazendo. Obirici virou
suas lágrimas, e suas lágrimas viraram um riacho, que foi fazendo seu
caminho pela areia até chegar à aldeia.
Primeiro
assustados, depois consternados, os tapi-mirins perceberam que o rio eram as
lágrimas de sofrimento de Obirici. Chamaram o arroio de Ibicuiretã, e os
açorianos quando aqui chegaram o rebatizaram de Passo da Areia, que deu nome
ao bairro.
Não há
mais areia, não há mais passo, mas Obirici ainda existe. Próximo ao viaduto
que leva o seu nome e que se ergue sobre a avenida Assis Brasil, a índia
está imortalizada em uma escultura, com os braços para o céu, pedindo um
alento à Tupã. |