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A
Sagrada família passou por poucas e boas quando atravessou o deserto fugindo
da ordem do rei Herodes para que fossem mortos todos os recém-nascidos, de
medo que um deles viesse lhe tirar o trono.
Como se
não bastasse a dura natureza do deserto, com um calor tremendo durante o dia
e um frio terrível durante a noite, José, Maria e Jesus ainda tinham nos
seus calcanhares os soldados do tirano.
Bem se
sabe que o deserto é um descampado, como o Pampa. Não há onde se esconder!
Era preciso caminhar léguas até encontrar um refúgio, um lugar seguro para
descansar sem correr o risco de ser pego pelos inimigos.
Durante
a travessia, a família do Menino Jesus parou num oásis, um pingo de verde
cercado por um oceano de areia por todos os lados. José conferia as
provisões, enquanto Maria dava banho no filho, cercada de aves e animais
terrestres que vivem sabe-se lá como naquele ambiente hostil. Abençoado que
era, Jesus atraía toda fauna local, que não se furtava de visitar passos e
berros de Deus.
Foi
quando ouviram ao longe passos e berros irados. Eram seus perseguidores, os
soldados do rei Herodes. Os três estavam bem escondidos, mas era preciso
fazer silêncio, ou seriam encontrados. Maria deu mamar a Jesus para que ele
não chorasse, mas os animais em volta continuavam a fazer barulho,
principalmente os pássaros, que não cessavam a cantoria.
Nossa Senhora então ordenou a todos que parassem ou ela ficaria muito
zangada. Não se ouviu um pio sequer.
Só quem
insistiu em continuar a cantoria foi um passarinho, que desembestou a dizer
que queria continuar cantando. E seguia voando e cantando:
- Quero!
Quero! Quero! Quero!
A
Virgem ordenou novamente, desta vez furiosa, que o passarinho fechasse o
bico. Mas nada: Quero! Quero! Quero! Quero! - era só o que repetia.
No fim,
os soldados acabaram não dando importância ao som daquele matraqueador e se
afastaram sem trazer perigo para os três fugitivos. Por muito pouco não
haviam caído nas mãos dos inimigos. Mas Nossa Senhora não se esqueceu do
passarinho estúpido que quase havia posto tudo a perder. Foi ter com ele:
- Ei,
passarinho! Tu ainda queres cantar?
- Quero!
Quero!
- Pois
saiba que tu vais cantar, sim, mas sempre a mesma música. Pela tua
imprudência vais repetir esse grito de quero-quero para todo o sempre.
É por
isso que o quero-quero, até hoje, mesmo que queira, não pode dizer outra
coisa.
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