Quando surgiu o Jornal Dois Irmãos?
Alan Caldas - O jornal Dois Irmãos surgiu em 25 de julho de 1983, no dia da Imigração Alemã.
Como surgiu? A partir de uma idéia, necessidade da cidade de ter um jornal próprio, sonho, ou porquê?
Alan Caldas - Foi um mix de tudo isso, mas basicamente porque, já trabalhando em jornal – na época a Folha da Tarde e Correio do Povo – eu sempre pensei em Ter meu próprio veículo de comunicação, onde eu delineasse a linha editorial que ele iria seguir. Dois Irmãos, na época de 1983, não tinha jornal e a idéia de ser o pioneiro me atraiu. Além disso, a própria comunidade, a partir de seu prefeito, que naquele ano era Romeu Benício Wolf, me procurou para estudar a possibilidade de abrir um jornal. Reunimos todos os setores da comunidade, políticos, empresários, sindicalistas, agricultores, religiosos, todos, enfim, e trocamos idéias sobre o estilo do jornal, bem como a logotipia e a linha editorial, que acertamos seria 100% comunitária. Sugeri que viria e defenderia durante todo tempo que o Jornal Dois Irmãos existisse, a memória dos de 1820, os pioneiros que fundaram nossa cidade.
Como começou?
Alan Caldas – Após essas reuniões com os mais diversos setores da comunidade e estando eu certo de que o Jornal Dois Irmãos não seria "meu" e sim da cidade de Dois Irmãos, parti para a elaboração do logotipo do jornal, que foi feito pelo César Müller e que prestigiava o gótico, aquela letrinha toda florida. Fiz isso porque, em 1829, quando os pioneiros dois-irmonenses chegaram aqui, eles escreviam dessa forma, e achei que isso daria ao jornal, uma espécie de benção daqueles pioneiros. Foi uma correria para colocar a primeira edição na rua, pois eu só tinha uma máquina de escrever e tive de contratar, no Jornal do Vale, do Jaime Vergara, em Novo Hamburgo, todo o sistema de elaboração e diagramação. O jornal ficou pronto na noite do dia 24 de julho e foi distribuído no dia 25, o Dia da Imigração Alemã. E foi uma festa, porque todos estavam curiosos sobre como seria o Jornal Dois Irmãos. Conseguimos fazer 16 páginas, narrando a cidade. No dia que ele saiu, eu entreguei o primeiro e disse, ali na Sociedade Atiradores "E viva nosso jornalzinho, que para o número 1.000 só faltam 999..."
Sempre foi diário?
Alan Caldas – Nãããão! No início era só uma vez por mês. E olha lá. Até porque a cidade era pequena e eu não conseguia arrumar uma sala, motivo pelo qual o escritório da empresa Edimca, que edita o Jornal Dois Irmãos, durante 6 meses foi dentro do meu chevette. A falta de endereço para colocar o escritório em Dois Irmãos não foi problema, pois o Carlinhos Vier era Presidente da Sociedade Santa Cecília e me "emprestou" o número do prédio (Avenida São Miguel, 500), para legalizar os documentos da empresa. Ficamos mensal por seis meses e, então, passamos a quinzenal. Aí ficamos mais 1 ano e meio e, quando completamos dois anos de existência, passamos a semanal. Aí, durante 8 anos, ficamos semanal e, em 1993 eu perdi a paciência com jornal semanal, fui para os estados Unidos, fiquei 6 meses fazendo estágios em jornais diários em cidade pequena e, ao voltar, passamos o Jornal Dois Irmãos para diário. Foi uma loucura, sem dúvida, porque a cidade era pequena e porque, em 1993, o Jornal Dois Irmãos semanal tinha 28 páginas. O nosso jornal diário previa apenas 4 páginas dia e meus amigos e leitores acharam que eu iria quebrar o Jornal Dois Irmãos. Mas, durante 1 mês saia todas as tardes o jornal Dois Irmãos diário com entrega gratuita e, no fim de semana, saia normalmente o JDI semanal. Ao final de um mês, acabei com o semanal e passei a fazer exclusivamente o jornal diário.
Qual a equipe do jornal? Quantos funcionários?
Alan Caldas – Hoje temos, também o Jornal Estância Velha, que igualmente é diário. Somando todos que trabalham conosco, a equipe, contando entregadores, passa de 60 pessoas.
Quantos assinantes?
Alan Caldas – Ocorrem variações no número de assinantes, mas giramos, sempre, em torno de 3 mil assinantes. As vezes um pouco mais, outras um pouco menos, mas sempre perto disso. Abrangemos, com o Jornal Dois Irmãos, a cidade-mãe, que é Dois Irmãos e também, Morro Reuter.
Que tipo de matérias o jornal escreve, e para qual público?
Alan Caldas – Somos um jornal ao padrão total, não segmentamos um público. Somos da comunidade e, por isso, todos os setores que a englobam devem estar no Jornal Dois Irmãos. Polícia, esporte, política, economia, religião, arte, ciência, educação, administração, bairros.... tudo que faz parte do cotidiano da cidade é nosso foco jornalístico.
O jornal tem alguma filosofia?
Alan Caldas – Sim, defendemos a memória de 1829, os pioneiros que, atravessaram o mar, saíram do Hunsrück, se perderam no mar, se acharam e insistiram em vir aqui criar uma cidade e melhorar de vida. Eles eram guerreiros de paz, gente que queria trabalhar e criar progresso para si e para sua família. Eles pregavam trabalho árduo, a honestidade, a humildade sem subserviência e o desejo de progredir. Esse é o lema e a filosofia do Jornal Dois Irmãos: trabalho, humildade sem subserviência e desejo de progresso.
Qual a importância do jornal na sua comunidade?
Alan Caldas – Nesses 20 anos de existência, não houve um único fato importante na cidade que não tenha tido a presença comprometida do Jornal Dois Irmãos. Tudo, absolutamente tudo que acontece aqui, nós estamos presente, garantido que os valores maiores da cidade serão preservados. Assim, nossa regra é escrever não para agradar ou desagradar, mas para informar. Creio que a comunidade vê o jornal como importante, pois caso contrário não o teria apoiado por quase duas décadas.
Alguma curiosidade sobre o jornal?
Alan Caldas – Eu penso que a maior curiosidade é conseguirmos fazer um jornal diário numa cidade com 20 mil habitantes. Sob o ponto de vista da comunicação e da administração, isso é incrível. É tão incrível que Dois Irmãos se tornou a menor cidade do Brasil a Ter jornal diário. Estou até pensando um entrar no Guiness... (risos)
Algum comentário importante sobre o jornal?
Alan Caldas – Estamos na cidade para lembrar que em 1829 não existia nada aqui que não fosse mato, animais selvagens e, aqui e ali, um ou outro bugre andarilho. E que, em 1829, chegou aqui esse povo loiro, que vinha da Europa que era, então o centro do mundo. Esse povo trocou a civilização por um lugar ermo, desconhecido, um lugar que eles nem sabiam onde era e que não falava sequer a mesma língua que eles. Mas, mesmo assim, eles vieram. Vieram e começaram a abrir picadas. Vieram e começaram a plantar, a erguer casas, a fazer roças e mais roças. E foram, lentamente, dignificando esta região com a única forma possível de dignificar, ou seja, dignificaram a região pelo trabalho, pela humildade não subserviente e pelo desejo de progresso. Esse povo cresceu, deixou de ser agricultor, se tornou artesão, virou sapateiro e, com talento empresarial notável, transformou a pequena Picada dos Baum lá do distante 1829, na próspera Dois Irmãos, o 4º maior exportador de sapatos do Brasil. A cidade também "deu cria" e, dela, surgiram Santa Maria do Herval e Morro Reuter, sempre com apoio e participação direta do Jornal Dois Irmãos. E hoje, o que se vê, é o progresso, é a felicidade das pessoas, e nós, do Jornal Dois Irmãos, que chegamos aqui em 1983, nos sentimos honrados de poder, tal qual os de 1829, prestar à esta cidade o nosso apoio. Esta cidade, a meu ver, seria apenas mais um matagal sem progresso se, em 1829, não chegasse aqui aquele povo que, escrevendo seu próprio destino, tornou esta terra próspera, colocando-a a seu serviço e dominando a natureza bruta para que todos ao redor dela e ela própria vivessem mais felizes.